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Por agora eu sou inverno

25.3.15
Gosto tanto do próximo do próximo livro que não o consigo terminar. Não estou preparado para acabar com ele. Não quero sair desta incapacidade de o fazer. Evito pegar nele. Invento motivos. Vejo documentários de bandas dos anos oitenta. Levanto-me, vou à cozinha. Encontro sempre que fazer no computador, que não o caminho da pasta onde já morreram uns quantos capítulos e onde, mais dia menos dia, morrerá o resto da história.

"Ao homem que lhe pergunta pela escrita ela responde sempre com o futuro, porque só no futuro as suas palavras estão a salvo, ainda não aconteceram", in Appelbaum.

Por agora sou como o piano do Ólafur Arnalds. Por agora eu sou inverno.


O AMOR PRECISA DE UM PÉ DIREITO

3.5.14
O amor precisa de um pé direito.
Appelbaum amou durante poucos quilómetros e foi logo logo trocado por um amor com mais cavalos, arrebatador.

Tudo o que precisa saber, nesta ligação: APPELBAUMBLOG


E O CABELO, ESPANTADO, ESPANTADO

2.5.14
Appelbaum e as mãos da parteira à espera da cabeça dele, ao fundo da mãe, no bloco operatório.
A vida acontece, em APPELBAUMBLOG.



"O SILÊNCIO TORNOU-SE A SUA LÍNGUA MATERNA"

21.4.14
O nosso jovem adulto e as imagens. A sua compreensão. A evolução através do silêncio. Há novidades em APPELBAUMBLOG.
 

O HOMEM EXPERIMENTA A VIDA

19.4.14
"O sono quando tem de ser, é, não precisa de lugares carinhosos para fechar os olhos".
Indo por APPELBAUMBLOG


NASCEU UM LIVRO

19.4.14
Entraremos nos dois tempos da vida de um homem raro: as fotografias novas e os discos antigos.
Appelbaum prefere não falar. Tanto haverá da sua querida Lipstadt, na Alemanha. E menos havendo, será igualmente inesquecível a sua gloriosa jornada portuguesa, de Lisboa ao Porto, num carro tímido.

Um homem e as suas máquinas de amar sem som. Estamos perante essa história. Pouco barulho.

PS: Porque as editoras lêem devagar e porque alguns meses de silêncio voaram sobre a conclusão de "FUMADORES", este vosso amigo avança com os dedos todos e escreve "APPELBAUM", o livro que a partir de hoje acorda uma vez por dia neste endereço: APPLEBAUMBLOG.
É todo vosso, divirtam-se.






FOTOGRAFIAS NOVAS

19.12.13
4

Appelbaum parou um rio. Suspendeu no ar meia dúzia de folhas castanhas. As folhas são leves e isso até um homem frágil consegue fazer. Extraordinário é um homem sem músculos ter mais força do que um caudal. Appelbaum teve. Parou um rio com a ponta do dedo indicador. Um homem com um telefone nas mãos pode mudar o mundo e mandar mensagens à natureza, cuidado mãe, cresci para ti.
A força entusiasma.  O entusiasmo apressa os tempos. A fotografia saiu desfocada. Appelbaum voltou a tocar no ecrã, na segunda vez experimentou com o anelar, como se sabe o mais fraco dos dedos, capaz de casar, de fazer alianças e de desistir de tudo só por estar farto.  Certos dedos e certas pessoas não gostam de repetições. Isso é mau, porque o calendário manda os dias acontecerem uns a seguir aos outros.
Appelbaum voltou a parar um rio, suspendeu outro bando de folhas no ar. Não mexeu nas árvores. As árvores não vão a lado nenhum.

Feliz com o resultado da imagem, beijou o ecrã do telefone. Com os lábios descobriu um botão mágico, capaz de tirar as cores à fotografia. Para além de ter parado um rio, suspendido as folhas, ignorado o porte das árvores, Appelbaum  retratou Lipstadt a preto e branco, que é a melhor maneira de mandar calar as cores. 

Fotografias novas (5)

17.12.13
Lipstadt não vem no mapa da Alemanha.  Talvez Appelbaum não exista, não tenha chegado a nascer há quarenta anos.  Talvez não estivesse a fazer o pino, com as mãos da parteira à espera da cabeça dele, ao fundo da mãe, no bloco operatório. Ou então, o que sabem os mapas de salas de partos. Appelbaum nasceu no hospital de Lipstadt no dia  25 de Abril de 1974, há registos oficiais. Lipstadt deveria vir no mapa da Alemanha, porque Appelbaum tem nacionalidade alemã e passaporte, um reisepass vermelho da bundesrepublik.
Appelbaum adora fotografias onde a sua cara não está. Na fotografia do seu passaporte não mora mais ninguém além da sua cabeça, cortada pelo pescoço como um troféu de caça. Ficou com os olhos assustados e assimétricos. Ficou com o cabelo espantado, espantado. Em pé. Ficou com as orelhas maiores. Culpou o fotógrafo, uma que vez não tinha levado aquela cara de parvo para dentro do estúdio.
O mapa é grande, despreza os pequenos, Lipstadt teria entrado se tivesse outro tamanho, assim como é, vila pequena e solteira, caiu do desenho. Mas não caiu do mundo. Lipstadt existe e Appelbaum também. Tem fotografias que o provam.

Fotografias novas (7)

16.12.13
Por mero acaso Appelbaum levantou os olhos. Estava dentro da sala de jantar de um restaurante italiano na beira-rio de Lipstadt. Encontrou um jogo de futebol perto do tecto. O televisor cantava gooooooolooooo!
Um jogador marcou um golo com o pé e festejou, fez um coração com as mãos. Se tivesse marcado o golo de cabeça teria feito o mesmo gesto? Appelbaum pensa que não, Appelbaum pensa que não, está seguro, a cabeça atrapalha muito o coração porque pensa. Por seu lado, o coração, que não pensa, dá muitas dores de cabeça às pessoas espontâneas. Appelbaum nunca tem dores de cabeça. Coração tem. Usado como novo, mas tem. Amou poucos quilómetros e foi logo trocado por um amor com mais cavalos, arrebatador.
Portanto: o jogador fez um coração com as mãos porque marcou um golo com o pé direito, tivesse marcado com o pé esquerdo, a coisa dava para o torto, o coração ficava como a Torre de Pisa, atractivo por ser estranho.
O amor precisa de um pé direito, pensa Appelbaum, que agora baixa os olhos e examina o sapato, e o bate no chão, como quem procura par de salto alto.
À volta, nem um calcanhar sentado num tacão para consolar as vistas. Appelbaum desligou o radar, a sala de jantar estava cheia de botas da tropa e chuteiras, é engraçado como o calçado dos homens tem nomes de mulher.

FOTOGRAFIAS NOVAS

22.11.13
2

Regra número um da fotografia de rua: o silêncio. 
Uma locomotiva entrou aos berros na estação de Lipstadt. Imagens com ruído provocavam dores de cabeça em Appelbaum. A locomotiva podia parar, encher a barriga de passageiros, e seguir o seu caminho, podia tudo, menos entrar no álbum de Applebaum, o álbum não queria fotografias que pudessem perturbar o sossego das imagens mudas. 

O telefone procurou a realidade mais quieta da manhã.  Procurou pouco. Aos pés dos habitantes de Lipstadt um vagabundo dormia com o corpo estendido entre papelão e    mantas esburacadas. O sono quando tem de ser, é, não precisa de lugares carinhosos para fechar os olhos. Appelbaum fez pontaria ao chão do vagabundo e em troca o telefone deu-lhe uma fotografia adormecida à beira do meio-dia. Chovia. 

Ao contrário do dinheiro, a água pode cair do céu. Teso, o vagabundo acordou molhado. Viu o rosto curioso de Appelbaum com nuvens à volta do cabelo. O vagabundo puxou a manta, tapou a cabeça, deixou os pés de fora. Tinha pés carecas, iguais aos pneus de muita estrada. 
Podiam vir a ser amigos, se ambos estivessem dispostos a falar. Mais difícil é chegar à amizade sem palavras. Appelbaum sabe e não abre a boca. 
Em alemão Lipstadt significa cidade dos lábios. Estes dois homens entre o espaço de um fotografia percebem melhor a vida com a boca fechada. 

Fotografias novas

22.11.13
1

Appelbaum prefere não falar, não gosta. As palavras podem ferir, Appelbaum já viu pessoas em carne viva por causa de frases certeiras e os buracos nem sempre eram verdadeiros, às vezes não passavam de rumores. Appelbaum não gosta de sofrer e não gosta de falar. Também tem medo de ouvir. 

A mãe de Appelbaum tem medo do silêncio do filho, tem medo que ele fuja das pessoas e que vá morrer sozinho de um lugar alto. A mãe sabe da alergia do filho às palavras, mas decidiu comprar-lhe um telefone e enviou a máquina cega de falar pelo correio. Appelbaum recebeu a prenda e odiou a mãe. Mas foi um ódio mindinho. Appelbaum descobriu uma máquina fotográfica no telefone e saiu à rua. Procurou pessoas caladas e deu tiros nas caras mais quietas. A primeira vítima foi um vagabundo na estação de comboio. Dormia em cima de uma cama de cartões castanhos. Appelbaum sempre detestou a cor castanha. Temeu que o outono lhe estragasse as primeiras fotografias. 

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