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O diário do coiso #6

5.4.15
Calcadas quinhentas páginas, leitura feita a mais de metade do caminho, O Pintassilgo não se aborrece nem me aborrece. Morreu gente, anos passaram, duas cidades aconteceram, o adolescente Theo passou por isto e por aquilo. Aí, no decurso da narrativa, a pena da escritora não adormeceu.
O quadro de Carel Fabritius está em boas mãos.




O Pintassilgo anda a ser lido quando pode em Vila Nova de Gaia, terra de lombada farta, como a do livro, terra de terra, de muita terra, mas também terra de muito mar, de tanto mar.  Por estes dias de sol mandão as flores já espreitam quem lá vem.

  A maré deste domingo trouxe música feita à medida do meu anzol. Eu pesco.
 

URSO PANDA

18.1.15
Por fim o carro saiu da garagem, situada nas fundações do prédio,  e assim que se viu ao relento cumpriu as ordens habituais, velocidades, embraiagem, acelerador, e o caminho, como por norma acontece, aconteceu.
Em Valadares, seguindo para norte, o funil aperta, por causa de uma desastrada saída posta no lado esquerdo da via, e o trânsito cai todo para dentro do vidro, engarrafa. Hoje não foi dia para chegar ao Porto (fotogénico até em sentido proibido), mas também não foi um dia longe disso, porque o destino ficou a um rio de ir lá parar.
No regresso a casa, deixei entrar dois estádios de futebol na sala, Barreiros e Alvalade. Ganharam as duas metades de Lisboa, Benfica e Sporting, pela ordem de entrada em campo. Voltei a sentar no sofá "Os Factos", que são parte da vida de Philip Roth, na primeira pessoa, estive com ele na parte em que ele foi Joe College. Por fim deixei um disco, o último Panda Bear, a mexer comigo e eu a tentar saber mais dele, algo desconfiado e não convencido de todo, embora admirando e assinalando.



PANDA BEAR - Mr Noah

Intervalo

15.1.15
Aqui, tão longe de Lewisburg, um vale fértil, e tão longe de 1950, e mais perto de Eça de Queirós do que de Philip Roth, num intervalo da leitura de "Os Factos", e num escasso intervalo da chuva, atravessei a linha do comboio e fui ver a praia fora da sua estação.
Qualquer dia a Granja perde a bancada de pedra toda para o mar, como já perdeu a casa do escritor que ali havia e como tem vindo a perder areal. Não era assim há um punhado de décadas quando Roth, pendurado na permissão dos pais, foi com eles procurar uma universidade e a encontrou no continente do lado de lá.







Nós numa tempestade e o mundo nisto...

3.12.14
... grande, azul, atlântico, como se nada fosse, e o azar não batesse à porta, à mesma porta, furioso, implacável, quantas vezes filho da puta, um martelo, forte, cobarde, demolidor, indiferente, silencioso, injusto, o inverso de uma tarde de praia assim, exactamente o contrário da realidade interior. É o mundo. É o mundo.

CRÓNICAS DA RUA DO MAR (2)

16.4.14

Máquina com a língua de fora no deserto. Deserto nem tanto pela areia, mais pelas pessoas que não estiveram esta manhã praia da Aguda, lugar onde o mundo acaba. O Zé e o Manel passaram por nós em passo bem disposto, são fotojornalistas, talvez nos encontremos esta noite em Vila do Conde. Enquanto eles continuaram para norte, nós fizemos o contrário e encontramos a areia no bloco operatório, com a máquina que a vai operar pronta para o serviço. No fim da Rua do Mar o areal engorda durante o inverno. Coisa que lhe acontece todos os anos desde que o molhe foi construído. Não pode chegar assim à praia.Vai emagrecer umas toneladas antes do verão. Pessoas farão o mesmo ao corpo, outras não, quando o calor der à costa.

O ENTARDECER SEM FILTRO

23.3.14
Era sábado e era Março.
A noite nasceu primeiro no arvoredo e o resto do anoitecer veio quando as nuvens vieram todas.O sol deixou lembranças nas lâmpadas. Os carros anoiteceram na curva, o rio chegou ao mar destravado. E a ponte ficou à margem.

O ESTRANHO ENCONTRO ENTRE BORJA E BORJA

21.3.14
Quanto mais perto do fim anda o livro, mais o professor Borja consegue ajardinar Rosa e mais dele é a história, pelo menos mais dele é a condução dos factos. O livro insiste que Jesus Cristo bebia cerveja e o professor sofre da mesma insistência.
Pouso o livro a trinta páginas da última página. Em cima da mesa, ao lado do livro, existe uma caixa com duas colheres. As colheres são da marca Borja. Vieram da Suécia. Custam pouco dinheiro. Borja, o professor, e Borja, as colheres, terão diferentes destinos. O do livro há-de acabar em breve, mas o professor ficará na memória durante o tempo que a memória deixar que ele fique. As colheres ainda têm de comer muita sopa antes antes de concluírem a história que vieram contar a esta casa em Vila Nova de Gaia, a cidade que deixa o Porto à distância que o Porto precisa para ser Porto.




OUTRAS PESSOAS

10.3.14
(um ensaio)

Não te ponhas já com os olhos em cima da fotografia, põe-te a comer com a boca o peixe que veio no prato, mas come com a boca fechada, mastiga como quem come as letras do jornal, é de bom serviço o silêncio, a ciência do seu uso.
E não te ponhas a olhar para mim com  olhos do tamanho de um título, as primeiras páginas e as mulheres nuas a seu tempo caducam, por muito que um dia tenham sido a mais oportuna frase do mundo.
Isso, insiste. Fecha os ouvidos como quem escolhe quatro números e encerra no cofre do quarto do hotel o passaporte e as chaves de casa. Isso, ignora. Tapa os olhos com a fotografia de uma ponte acesa a espreitar o lado Gaia da vida.

  

INVISÍVEL

27.2.14



O tempo esteve a secar ao sol em Arcozelo faz em Agosto dois anos. Pendurou-se num arame à porta do espigueiro, fez uso das molas já que elas ali estavam sem roupa para vestir, o tempo deixou-se estar enquanto quis e ninguém deu por ele, mas que ele por ali passou, passou, e quando acabou de passar foi como se nunca ali tivesse estado.

NÓRDICO

20.2.14
































Esta fotografia da Islândia foi tirada em Vila Nova de Gaia num inverno que não este, mas um próximo, o anterior. Isto é onde Miramar acaba pelo norte e Francelos avança no mapa, é seguramente de umas sete da manhã de Março, daqui partiu correndo um solitário trabalhador por conta de outrem antes do horário onde as horas se transformam em dinheiro. Ele, um profissional dos salários do sul da Europa, quando corre ainda faz a coisa por menos. Põe os pés em serviço de voluntariado e arranca em direcção ao futuro. O futuro tanto demora trinta, como quarenta e cinco ou sessenta minutos. Mal o futuro acaba ele regressa a casa o vai ganhar o tal dinheiro que é pouco, mas que se fosse nenhum seria bem pior. Aí encontra a sua condição portuguesa.

PORTO DE ABRIGO

17.2.14
Aqui ficando menos oportunidades temos de chegar a algum lado na vida, mas, aqui ficando, temos a fortuna de ter o que mais ninguém tem e que é o ser de cá.
Dizem por aí ultimamente que somos o norte, mas somos muito mais do que a vontade dos outros e a vontade da bússola. Somos o coração sentado na língua, somos o que não dizem de nós, mas também somos o que dizem, somos toscos, imperfeitos, é verdade que somos o bico da pedra que temos na mão e que nos vai defender. E sim senhor, somos o terror da gramática quando a gramática se põe a olhar para nós de cima para baixo, cerimonial, a contar as autópsias que fazemos às palavras. Não podemos esconder, a não ser que nos cosam os lábios, o tabuísmo do nosso vocabulário, tão cheio de caralhos, mas tão cheio, que há muito deixou de ser pornofonia (se é que alguma vez foi) e é sal, porque para dizer qualquer coisa sem tempero o melhor é manter a mandíbula quieta, dietas de conversa, que não devem ser confundidas com silêncio, para elas teremos um dia muito tempo, quando a eternidade nos puser esticados em caixotes de madeira e aos caixotes a eternidade os puser entre chão e chão. Aí, que se foda, não há mais nada a fazer, mas antes disso não. Antes disso, continuemos a ser isto:

QUANTO MAIS O INVERNO ANDA, MENOS SAI DO SÍTIO

16.2.14








Uma grande vontade de o mandar para o Caribe, ao inverno, ou de o pôr a andar depressinha para o outono da América do Sul, de mandar o vento sambar descalço numa plantação de maconha, e a chuva que se ponha a cair numa bossa nova que aqui os camelos do costume já beberam céu para dez anos.
Da água já só queremos a sua fábrica de espelhos, para podermos ver melhor a primavera quando ela chegar. Até lá, fica um quadrado de mundo que a fotografia apanhou a caminhar sobre um ribeiro em 2013 e o pôs de pernas para o ar.

APONTAMENTOS DA CIDADE CINZENTA

17.1.14


Pela frente do Hotel Boa-Vista, seguindo para norte, quando a estrada volta a dar à costa, mais quilómetro menos quilómetro, o ocidente deslumbrante acontece, independentemente da gradação da luz ou da estação do ano que esteja a mandar no dia. 
A esta hora, quase nove da manhã, Vila Nova de Gaia inteira está a pôr-se em cima das pontes modernas, tanto melhor, porque bem mais perto do lombo do Douro, o tabuleiro inferior da ponte D. Luís tem o asfalto vazio e o caminho livre. Que bem se entra por aí no Porto e que bom é ver logo a seguir que algo de bom, e de belo, anda a ser feito nos edifícios da parte mais baixa da Rua dos Mercadores.  

AS GRANDES SAUDADES DAS PEQUENAS COISAS

13.1.14
Cheguei a ter um carro do tamanho de uma despensa. Orgulhava-me de o poder levar para qualquer sítio, para os lugares mais improváveis, onde os outros não conseguiam ir. Às vezes, só para me exibir, estacionava-o lá em cima, no canto de uma fotografia. Noutras ocasiões, entre o vermelho e o verde de um semáforo, sentava-me com ele ao piano e lá ficávamos os dois, na montra da loja de instrumentos musicais, feitos um para o outro, muito seguros da nossa eternidade.


RESSUSCITAR UM BLOG

3.1.14
Não sou do Porto, mas ando lá perto. Nasci do outro lado do rio, cresci, por lá (cá) fiquei, a sul, nunca muito afastado da praia, em Gaia. Trabalho a norte, numa terra de pescadores, mesmo em frente a uma fábrica de conservas, em Matosinhos. Todos os dias o jornalismo me cheira a sardinhas em lata. No zodíaco o meu signo é peixes. Parece fazer sentido, a vida encostada na orelha do Altântico, umas opções encaixam nas outras, o caminho tem sido este.

Dias há em que sou o homem dos pés azuis e do tronco cizento. O homem das pernas de ganga e das mãos nos bolsos. Dias há em que sim. Dias há em que não. 
E lá vão passando por aqui as últimas noites da Terra, sendo certo que nem todas as histórias terminam em Vila Nova de Gaia. 

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