Vinte passos mais adiante, o homem vinte anos mais velho já fez a curva, mas segue o seu caminho desviando os pés do pôr-do-sol. Nem todas as fotografias do Outono se contentam com o cair da folha, nem sempre Novembro foi cinzento como nem sempre há pincéis azuis para todos os céus de Junho.
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REZAR COM O ANZOL
5.1.14
Enquanto um fuma, enquanto um fala e o outro escuta, enquanto isso, a areia diz tudo sobre o caminho dos homens e o mar nada revela sobre o dos peixes. Mas os homens têm tempo. Vão ficar à espera que o mar mude de ideias, que ponha a boca no anzol, que sangre, que se perca na sua inevitável memória de peixe. E que volte a dar uma esmola com espinhas.
RAIOS DE SOL DENTRO DE UM LIVRO
20.12.13
Um homem morreu em Tel Aviv enquanto a bicicleta chegou ao areal de Miramar. De pronto o escritor semeou dois supeitos na narrativa, um homem e uma mulher. Vale todas as viagens e mil voltas a França e ao mundo a Necrópole, de Santiago Gamboa, um colombiano escolhido a dedos pelas palavras para nos dizer coisas.
A COLHEITA DE 2013
4.9.13
Faz três anos em Outubro que nos plantámos no segundo andar esquerdo, num chão de tacos de madeira da cor do trigo, pouco ou nada sementeiro. Vinha eu com duas canadianas de ferro cinzento e uma portuguesa de carne e osso, morena. Decidimos montar o futuro no outono minha rótula partida, a vida tinha três pernas para andar e os meses foram passando pelo estaleiro e pela fisioterapia até que um dia o pé esquerdo foi autorizado a descer à terra, primeiro para umas visitinhas de médico e depois a tempo inteiro. Mudar de casa e aprender a andar: ora aí estão duas cascas de banana que convém transformar em bengalas a toda a bolina.
O novo endereço, marinheiro dos pés à cebeça (Praceta do Comandante Jacques Cousteau), como todos os endereços, não foi sempre um mar de rosas. O vento norte aparece de cabelos em pé quando lhe apetece, por isso nem vale a pena pentear o texto com brilhantina. É desconfiar sempre dos casamentos de risco ao meio, muito arranjadinhos, metades iguais e nem um pêlo discordante.
E a vida lá foi navegando sem perder o norte, muitas vezes de velas arriadas, como se o mundo inteiro fosse coberto de azulejos azuis, um rectângulo escavado no solo, cheio de água mansa.
Os anos foram passando no lugar certo à hora certa e um dia acertaram os ponteiros com o relógio biológico. Agora a casa tem um pai, uma mãe e um filho.
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