Fim.
A ave morreu, com penas e tudo, trinchada ao longo de quase 900 páginas. E agora está embalsamada, com toda a palha que tem lá dentro, deitada sobre um alinhamento de livros, porque na estante não cabe mais ninguém. Lembrete: comprar outra estante. Por outro lado ganhei um novo habitante da minha memória, Theo Decker, personagem principal, narrador, perturbado, antiquário, humano da cabeça aos pés.
PS: Mora lá em baixo uma música muito linda.
Gostaria de ter entrado mais cedo no Pinhão, de onde é natural, e residente, a senhora Aurora Santas Noites. Aurora faz parte dela desde que se conhece. Santas Noites veio com o matrimónio, o que faz todo o sentido, e ainda bem que assim é, fruto do apelido entusiasmante do marido.
Aurora Santas Noites tem um filha muito bonita, diz, cujo rosto está na Quinta Avenida, em Nova Iorque, é modelo fotográfica a rapariga. E tem um filho, o melhor piloto de carros do mundo, diz, e diz que o impediu de jogar à baliza no FC Porto porque tem medo de aviões, ele podia cair, e ela não ia aguentar. Assim o filho ficou-se pela trave e pelos postes do Alijó e arredores, voou rasteiro.
Encontrei Aurora à dez da manhã, ao fim da ponte.
Depois de Aurora, a jornada serpenteou quintas e vinhos, fez tangentes, não foi lá. Quedou-se pela beira do rio e na beira do rio encontrou o país mais barato, mais antigo, mais combustível, com cinquenta litros de gasóleo pela melódica quantia de três euros e quarenta cêntimos.
Durante o dia inteiro o Douro não parou de bater à porta. O Pintassilgo ficou em casa, coitado, tão longe tão longe desta vista.
Para fechar o relato, duas réguas sobre o rio, entre as margens.
Falta só dar de comer aos ouvidos. Bom proveito ;)
A tradução volta e meia perde-se do livro, infelizmente. Lá voltarei às páginas mais perto da meia-noite.
A vida... quanto à vida esta foi uma segunda-feira gorda.
Um dia de folga muito bem calçado, que me assentou como uma luva. Levou bacalhau com broa, amigos, vinho branco, os 41 anos do Nuninho, teve uma sesta, filho, sogros, pais e ginásio.
E só o ginásio dava para um dia inteiro: espantei-me com a existência de boxers da marca Glhan Klaim e há homens que passam a gilete nas pernas no chuveiro, fiquei a saber.
Vai terminar o dia com Sufjan Stevens. O disco Carrie & Lowell já está no Spotify. Meti a música Fourth of July debaixo da fotografia. E agora vou tratar do Pintassilgo.
Estes primeiros dias do romance da menina Tartt avançam e ele continua a ser a caldeira que a locomotiva do leitor exige. Ontem vi uma bicicleta amarela a desafiar as janelas do primeiro andar de um prédio e a passar por elas como se fosse normal uma bicicleta sonhar com o impossível.
Nada de mais, para quem, como eu, tem um Pintassilgo a servir de âncora dos dias. O livros até podem ir, mas se virmos bem as coisas, não vão, ao fundo. Interessantes tábuas de salvação.
Eu e a pessoa que manda em mim, a minha cabeça, estivemos esta tarde no Porto.
Para dizer a verdade estive lá mais eu do que ela. Ela anda a pensar em mudar de vida e eu não sei o que lhe diga. Ela é que manda. Mas adiante. Bebemos um belo café de saco num camarim da Casa da Música, comemos bolachas cor de trigo, falámos do tempo, da música, da Casa, e até fizemos metáforas com futebol à mistura.
Enquanto isto, no livro, há todas as partículas de pó no ar. Para já o livro está a saber tão bem como a primeira mijadela de um novo dia. Era bonito que ele continuasse a ser algo mais do que esse tesão matinal.