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O diário d´O Pintassilgo #3

28.3.15
Estes primeiros dias do romance da menina Tartt avançam e ele continua a ser a caldeira que a locomotiva do leitor exige. Ontem vi uma bicicleta amarela a desafiar as janelas do primeiro andar de um prédio e a passar por elas como se fosse normal uma bicicleta sonhar com o impossível.
Nada de mais, para quem, como eu, tem um Pintassilgo a servir de âncora dos dias. O livros até podem ir, mas se virmos bem as coisas, não vão, ao fundo. Interessantes tábuas de salvação.

 

O diário d´O Pintassilgo #2

28.3.15
Eu e a pessoa que manda em mim, a minha cabeça, estivemos esta tarde no Porto.
Para dizer a verdade estive lá mais eu do que ela. Ela anda a pensar em mudar de vida e eu não sei o que lhe diga. Ela é que manda. Mas adiante. Bebemos um belo café de saco num camarim da Casa da Música, comemos bolachas cor de trigo, falámos do tempo, da música, da Casa, e até fizemos metáforas com futebol à mistura.
Enquanto isto, no livro, há todas as partículas de pó no ar. Para já o livro está a saber tão bem como a primeira mijadela de um novo dia. Era bonito que ele continuasse a ser algo mais do que esse tesão matinal.


Une chanson française

14.3.15
Noite dentro, manda o céu para o caralho.
Estivera a tarde inteira a pintar os dentes com vinho americano, uma poça do sangue de Cristo, diria o padre, se fosse o padre a dividir o garrafão pelo copo. Mandara então o céu para o caralho, enchera a boca com o inferno. Era o seu jeito de ganhar coragem. E ganhava? Não. Não ganhava. A seguir cambaleava, caía, adormecia na valeta. Só nos sonhos chegava à porta da rapariga do décimo andar, Celeste. Chegava, entrava, entrava, saía e saía. No sonhos.

No dia seguinte tinha o cu lavado pela chuva. Levantava a ressaca do chão, comia o pão da padaria Molete. O padeiro contava a história do General Moulet, a ordem para fazer pães mais pequenos para melhor distribuir o pão pelo exército, no Porto, durante as invasões francesas. Depois ia dormir. Acordava, bebia e começava a mandar o céu para o caralho outra vez.

URSO PANDA

18.1.15
Por fim o carro saiu da garagem, situada nas fundações do prédio,  e assim que se viu ao relento cumpriu as ordens habituais, velocidades, embraiagem, acelerador, e o caminho, como por norma acontece, aconteceu.
Em Valadares, seguindo para norte, o funil aperta, por causa de uma desastrada saída posta no lado esquerdo da via, e o trânsito cai todo para dentro do vidro, engarrafa. Hoje não foi dia para chegar ao Porto (fotogénico até em sentido proibido), mas também não foi um dia longe disso, porque o destino ficou a um rio de ir lá parar.
No regresso a casa, deixei entrar dois estádios de futebol na sala, Barreiros e Alvalade. Ganharam as duas metades de Lisboa, Benfica e Sporting, pela ordem de entrada em campo. Voltei a sentar no sofá "Os Factos", que são parte da vida de Philip Roth, na primeira pessoa, estive com ele na parte em que ele foi Joe College. Por fim deixei um disco, o último Panda Bear, a mexer comigo e eu a tentar saber mais dele, algo desconfiado e não convencido de todo, embora admirando e assinalando.



PANDA BEAR - Mr Noah

Depois do Porto,

21.10.14













em Matosinhos, os portuguesinhos que muito prezam os animaizinhos, mas que por extrema infelicidade dedidem cagar com o cu dos cães, enchem a rua de merda, e  esta, onde as árvores declinam e os carros a afunilam, esta cujo nome vem com um Conselheiro na ponta, esta cheira mal para caralho, por mais que as senhoras caminhem pose, cão, trela e estatuto social.

A importância das ruas na compreensão do mundo

2.9.14
Fomos por uma rua sem ponta de trânsito. O Fokker, manso como um rio, levou a água ao seu moinho, do Porto a Bruxelas, tendo lá chegado pela hora do almoço, tanto em Portugal como na Bélgica, que isto de uma hora para trás ou uma hora para a frente, não transforma uma refeição naquilo que ela não é. 
Um carro à nossa espera levou-nos à Rue des Enfants, em Lille. Uma rua com o mesmo nome, fosse na Bélgica em vez de ser na França, levaria de imediato as crianças por outros caminhos.

E na volta, no Porto, o Boavista, perdido da Primeira Divisão há seis anos, emitia credenciais para o extinto "Primeiro de Janeiro". Nada de anormal, afinal a morada do clube é na rua com o nome do jornal.






O ENTARDECER SEM FILTRO

23.3.14
Era sábado e era Março.
A noite nasceu primeiro no arvoredo e o resto do anoitecer veio quando as nuvens vieram todas.O sol deixou lembranças nas lâmpadas. Os carros anoiteceram na curva, o rio chegou ao mar destravado. E a ponte ficou à margem.

O ESTRANHO ENCONTRO ENTRE BORJA E BORJA

21.3.14
Quanto mais perto do fim anda o livro, mais o professor Borja consegue ajardinar Rosa e mais dele é a história, pelo menos mais dele é a condução dos factos. O livro insiste que Jesus Cristo bebia cerveja e o professor sofre da mesma insistência.
Pouso o livro a trinta páginas da última página. Em cima da mesa, ao lado do livro, existe uma caixa com duas colheres. As colheres são da marca Borja. Vieram da Suécia. Custam pouco dinheiro. Borja, o professor, e Borja, as colheres, terão diferentes destinos. O do livro há-de acabar em breve, mas o professor ficará na memória durante o tempo que a memória deixar que ele fique. As colheres ainda têm de comer muita sopa antes antes de concluírem a história que vieram contar a esta casa em Vila Nova de Gaia, a cidade que deixa o Porto à distância que o Porto precisa para ser Porto.




PORTO DE ABRIGO

17.2.14
Aqui ficando menos oportunidades temos de chegar a algum lado na vida, mas, aqui ficando, temos a fortuna de ter o que mais ninguém tem e que é o ser de cá.
Dizem por aí ultimamente que somos o norte, mas somos muito mais do que a vontade dos outros e a vontade da bússola. Somos o coração sentado na língua, somos o que não dizem de nós, mas também somos o que dizem, somos toscos, imperfeitos, é verdade que somos o bico da pedra que temos na mão e que nos vai defender. E sim senhor, somos o terror da gramática quando a gramática se põe a olhar para nós de cima para baixo, cerimonial, a contar as autópsias que fazemos às palavras. Não podemos esconder, a não ser que nos cosam os lábios, o tabuísmo do nosso vocabulário, tão cheio de caralhos, mas tão cheio, que há muito deixou de ser pornofonia (se é que alguma vez foi) e é sal, porque para dizer qualquer coisa sem tempero o melhor é manter a mandíbula quieta, dietas de conversa, que não devem ser confundidas com silêncio, para elas teremos um dia muito tempo, quando a eternidade nos puser esticados em caixotes de madeira e aos caixotes a eternidade os puser entre chão e chão. Aí, que se foda, não há mais nada a fazer, mas antes disso não. Antes disso, continuemos a ser isto:

PORTO PARÁGRAFO

13.2.14


Recuperando prosas a propósito da actualidade:

"E do outro lado, o Porto. O bilhete de identidade dos tripeiros como um quadro desenhado na margem, imponente, duro, verdadeiro e velho, uma obra de arte acidental, a cidade mais o seu povo, semeado naquele chão".

"Tantas situações pouco recomendáveis acontecem, graças a Deus, mesmo em frente à Ordem do Terço, na Travessa de Cimo de Vila. Entre elas, quatro cigarros acessos, duas línguas afiadas, quatro gargantas secas. Sai um jarro pintado de tinto. Parte-se um copo no brinde. Cai um quartilho nos paralelos, os pombos descem do telhado, mas logo se apontam outra vez ao céu, porque aquele sangue traz água no bico. "

"Avô e neto treparam cada qual no seu vagar os dois degraus de aço. Em breve o comboio interregional com destino a Aveiro partiria da linha número um da estação de S.bento, pouca terra, pouca terra, movendo-se de estacão em estação, de apeadeiro em apeadeiro. O comboio dá pontos com nó no chão de vila nova de Gaia, avô e neto deixam-se ir naquela máquina de costura , vão falantes, bem dispostos, comboio e carris são linha e agulha dessa cicatriz que se aproxima do mar à medida que o Sul acontece. Em meia hora avô e neto dão à costa no apeadeiro da Aguda. A praia contorna o quartel dos bombeiros e as paredes da capela.
Bem se vê que avô e neto não fazem férias há um tempito. O Jardel, o cão, perdeu-se com certeza nas balizas do tempo.
Vai um cigarrinho para puxar pela memória dos pescadores. Resulta. Dizem que o Jardel morreu para o futebol e que o diabo do canito sentiu o adeus como se fosse gente. Morreu de desgosto num par de meses."


*Extraído do livro Fumadores.

Mitos Urbanos

8.2.14
No tempo dos eléctricos, fosse uma mulher a encaminhar a máquina, como é o caso deste, en train de partir, caía o Carmo e a Trindade. Algures em Março de 2013, data da fotografia, guiar já só dependia da habilidade das mãos e não da intimidade das ceroulas. A igreja do Carmo continua de pé. E a Trindade retesada se mantém. O mito vai no Batalha.



UM PORTO COM ÁGUA SEM GÁS

30.1.14

Do interior desta quinta-feira ficam-me os carros na moldura do rio, a água a borrar a pintura, a ponte a subir para Gaia, a pedir que ninguém vá embora por causa do inverno.  E ninguém foi. Fez-se  este trânsito todo na margem e a espera deu em fotografias do tamanho de um azulejo. 

APONTAMENTOS DA CIDADE CINZENTA

17.1.14


Pela frente do Hotel Boa-Vista, seguindo para norte, quando a estrada volta a dar à costa, mais quilómetro menos quilómetro, o ocidente deslumbrante acontece, independentemente da gradação da luz ou da estação do ano que esteja a mandar no dia. 
A esta hora, quase nove da manhã, Vila Nova de Gaia inteira está a pôr-se em cima das pontes modernas, tanto melhor, porque bem mais perto do lombo do Douro, o tabuleiro inferior da ponte D. Luís tem o asfalto vazio e o caminho livre. Que bem se entra por aí no Porto e que bom é ver logo a seguir que algo de bom, e de belo, anda a ser feito nos edifícios da parte mais baixa da Rua dos Mercadores.  

AS GRANDES SAUDADES DAS PEQUENAS COISAS

13.1.14
Cheguei a ter um carro do tamanho de uma despensa. Orgulhava-me de o poder levar para qualquer sítio, para os lugares mais improváveis, onde os outros não conseguiam ir. Às vezes, só para me exibir, estacionava-o lá em cima, no canto de uma fotografia. Noutras ocasiões, entre o vermelho e o verde de um semáforo, sentava-me com ele ao piano e lá ficávamos os dois, na montra da loja de instrumentos musicais, feitos um para o outro, muito seguros da nossa eternidade.


PERGUNTAR AO PORTO

10.1.14

Em termos de trabalho, este foi o dia mais bendito do ano. Porquê? Por causa dos portuenses que encontrei pelo caminho e que me encheram o microfone com respostas sorridentes, sensatas, puras e simples. As perguntas levavam todas, sem excepção, Lisboa na ponta da flecha. E a todas elas eles responderam à moda de um Porto de bem com a vida, urbano, hospitaleiro, adulto, sincero. 

O microfone apontou a língua a homens e mulheres de todas as idades. Na resposta o Porto disse que Lisboa é uma cidade linda, ampla, de grandes avenidas, belos os monumentos, bons pastéis de Belém, e que antigamente o melhor da capital era o comboio rápido para Porto. O Porto disse que o pior de Lisboa está nos arredores, que a cidade é feia vista de trás. E que o lá o trânsito também não é nada bonito.
E onde se trabalha mais, em Lisboa ou no Porto? A perguntou tombou e o Porto agarrou a deixa: "nem em Lisboa, nem no Porto. Há pouco trabalho com esta crise".
Sobre a simpatia das pessoas, o Porto disse a Lisboa que as pessoas do Porto são mais simpáticas.

O Porto abriu o livro e foi como se eu tivesse entrado numa música dos GNR, feita à medida de um filme com final feliz. Um inesperado dia de primavera no inverno.

E DO OUTRO LADO, O PORTO *

9.1.14
"E do outro lado, o Porto. O bilhete de identidade dos tripeiros como um quadro desenhado na margem, imponente, duro, verdadeiro e velho, uma obra de arte acidental, a cidade mais o seu povo, semeado naquele chão".

*Extraído do livro Fumadores.

ALERTA VERMELHO

7.1.14
Hoje à tarde, na Foz, a onda demorou um minuto a regressar ao mar. Ao fim de uma hora o susto ainda não tinha saído da cara dos homens, apanhados de surpresa pela tempestade Hércules, que levantou dez carros do chão e arrastou um incauto casal de peões em frente ao Clube de Ténis. 
O litoral norte está em alerta vermelho desde domingo. O temporal está a morder a costa. É fugir da boca do lobo.

RESSUSCITAR UM BLOG

3.1.14
Não sou do Porto, mas ando lá perto. Nasci do outro lado do rio, cresci, por lá (cá) fiquei, a sul, nunca muito afastado da praia, em Gaia. Trabalho a norte, numa terra de pescadores, mesmo em frente a uma fábrica de conservas, em Matosinhos. Todos os dias o jornalismo me cheira a sardinhas em lata. No zodíaco o meu signo é peixes. Parece fazer sentido, a vida encostada na orelha do Altântico, umas opções encaixam nas outras, o caminho tem sido este.

Dias há em que sou o homem dos pés azuis e do tronco cizento. O homem das pernas de ganga e das mãos nos bolsos. Dias há em que sim. Dias há em que não. 
E lá vão passando por aqui as últimas noites da Terra, sendo certo que nem todas as histórias terminam em Vila Nova de Gaia. 

IMAGINAR

20.12.13























Pobre fotografia, mora debaixo da ponte, perto dos garimpeiros do peixe, essa pedra preciosa do palato. Pedala, homem, pedala, o céu está carregado de medalhas de ouro e o rio é deste retrato de família.  

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