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Intervalo

15.1.15
Aqui, tão longe de Lewisburg, um vale fértil, e tão longe de 1950, e mais perto de Eça de Queirós do que de Philip Roth, num intervalo da leitura de "Os Factos", e num escasso intervalo da chuva, atravessei a linha do comboio e fui ver a praia fora da sua estação.
Qualquer dia a Granja perde a bancada de pedra toda para o mar, como já perdeu a casa do escritor que ali havia e como tem vindo a perder areal. Não era assim há um punhado de décadas quando Roth, pendurado na permissão dos pais, foi com eles procurar uma universidade e a encontrou no continente do lado de lá.







A CASA

12.1.15
Do pequeno lanço de escadas, sentado no último de oito degraus, no mais alto, vejo o sol a navegar a tarde sobre uma vontade mar, lá ao fundo. É a porta do meu prédio. É o meu novo melhor lugar do mundo. Tenho lá ido com um livro, um café, um leitor de música (que por acaso existe no meu telefone) e as chaves do meu rés-do-chão.

Não sei se a música consegue acalmar o mundo. A mim consegue. descobri há dias, pouco depois de ter descoberto o poder curativo da minha escadaria, o disco Asleep Versions, do Jon Hopkins.



Chega a ser curiosa esta capa, com o seu fim  de dia igual ao meu, vermelho ao mar, e o homem branco a levitar, como eu, quando me sento em frente em frente ao sul e ao ocidente, eu, um livro, um cigarro, um café e mais ninguém, com a minha transfusão de música, que a faço a partir dos ouvidos, e a sinto nas veias, respiro melhor, escuto melhor, vejo melhor, observo, e deixo-me estar, até ao fim do café e mais além.

Não sei se os livros conseguem acalmar o mundo. A mim conseguem. Tenho "Os Factos" na mão. Estou a conhecer os pais do Philip Roth e o tio Bernie, estou na alvorada do livro, estou a percorrer a judiaria onde ele cresceu. E estou por aqui a manter um diário que não vai ter os dias todos, a contraria uma aversão antiga que é o desgosto de escrever na primeira pessoa do singular.

COMO OS LIVROS NOS CHEGAM ÀS MÃOS - 1

9.2.14
[PHILIP ROTH - A MANCHA HUMANA]

A mulher com o corpete vermelho passa os olhos azuis pelo rosto moreno de um homem, passa as mãos pela esbranquiçada capa de um livro, exibe o título e as unhas vermelhas, sorri, afasta o cabelo loiro, o homem e a mulher entrelaçam os braços, sobem o primeiro lanço de escadas dentro do hotel, procuram um elevador, encontram um quarto, ela é puta, ele não.
Belle é inglesa, tem um diário secreto, o diário secreto de uma call-girl, o corpo todo é uma máquina de fazer dinheiro, de fazer dinheiro como as mulheres fazem com o corpo, e as mãos até escrevem. Belle vive, conta, faz, diz, escreve, entra em casa, tira a puta do organismo, senta-se a ler um livro e quando está a ler chama-se Hanna, é uma rapariga em Londres, recém licenciada, tem um melhor amigo homem e nem ele sabe que o emprego numa multinacional é inventado e que a amiga responde por outro nome com a carteira aberta.
Billie Piper, cantora e actriz faz de Hanna e de Belle. Na cena que me prendeu, a loira de corpete vermelho entrega ao primeiro cliente da outra vida, com o qual mantém encontros esporádicos, antes de subirem para o quarto, e antes de ela desempenhar o papel de namoradinha com vontade, Belle entrega o livro que Hanna comprou e trouxe de casa dentro de uma mala preta: The Human Stain, de Phillip Roth.
Acabei de ver o episódio três da série um de Secret Diary of a Call Girl. Elaborei um roteiro secreto. Fiz catorze quilómetros de bicicleta em quarenta e tal minutos. Regressei a casa e tomei banho. Aqueci o jantar no micro-ondas, jantei e saí de casa. Tomei café na livraria, procurei o livro, mas A Mancha Humana estava esgotada. Deixei o meu número de telefone para avisarem da recepção do livro que ficou encomendado. Há-de chegar às minhas mãos como se estivesse a sair das mãos da Billie Piper *.


* o livro chegou e foi lido em 2009.
- Em baixo, cartaz da série Secret Diary of a Call Girl, emitida na ITV2, entre 2007 e 2011



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