Com este sol e outras chuvas escrevi um livro sem dor de burro, fiz uma prova limpa do princípio ao fim, sabendo de onde tinha saído e muito consciente de até onde tinha pernas para ir. E fui.
Entreguei a prova da minha prova às editoras. Deixei ficar com elas uma radiografia do livro e mandei também o corpo inteiro do bicho. Concluí a minha missão, não voltei a pensar no assunto.
Talvez tenham passado nove meses sobre o tempo em que acabei de o fazer. E nada. Nem uma vírgula, quanto mais três tristes letras a dizer não ou a dizer sim. Custará assim tanto a dispensa uma palavra por parte de quem faz vida com as maratonas das cabeças dos outros? (A bem da verdade, houve uma que disse sim. E eu a essa ainda não disse que sim, nem que não, mas sempre disse alguma coisa).
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FUMADORES. E UMA IMAGEM
1.5.14
"De tudo isto tomou consciência o avô às três por quatro da manhã num tugúrio frequentado por estivadores e marinheiros de transatlânticos enferrujados. Havia poucas horas estivera montado numa loira desenhadora de pontes e de problemas, um anzol dourado, que o avô mordera julgando estar a comer juventude e a rejuvenescer. A verdade dos factos tinha outro gosto. Afinal dera dentadas na morte, experimentara o sabor do seu próprio fim."
no livro FUMADORES
no livro FUMADORES
REVISITAR FUMADORES
18.3.14
"E agora que é que eu faço? Morro? Não só não me ensinaram a morrer como eu ao longo desta quinquilharia de anos nunca me deu para aprender a fazê-lo. E morro como? Penso muito numa dor de cabeça, rego a dor todas as manhãs e torno a regar antes de ir para a cama, a ver se a morte me começa a crescer entre as orelhas? Ou é preciso pôr adubo? E deixo a cabeça ao sol ou faço uma estufa com um boné? É que pouco percebo de jardinagem e do sentido da vida ainda menos. Com uma tesoura de poda não. O Senhor pôs-me o sangue no lado correcto do corpo, que é o de dentro, fez bem o Senhor, graças a Deus."
FUMADORES - 2013
PORTO PARÁGRAFO
13.2.14
Recuperando prosas a propósito da actualidade:
"E do outro lado, o Porto. O bilhete de identidade dos tripeiros como um quadro desenhado na margem, imponente, duro, verdadeiro e velho, uma obra de arte acidental, a cidade mais o seu povo, semeado naquele chão".
"Tantas situações pouco recomendáveis acontecem, graças a Deus, mesmo em frente à Ordem do Terço, na Travessa de Cimo de Vila. Entre elas, quatro cigarros acessos, duas línguas afiadas, quatro gargantas secas. Sai um jarro pintado de tinto. Parte-se um copo no brinde. Cai um quartilho nos paralelos, os pombos descem do telhado, mas logo se apontam outra vez ao céu, porque aquele sangue traz água no bico. "
"Avô e neto treparam cada qual no seu vagar os dois degraus de aço. Em breve o comboio interregional com destino a Aveiro partiria da linha número um da estação de S.bento, pouca terra, pouca terra, movendo-se de estacão em estação, de apeadeiro em apeadeiro. O comboio dá pontos com nó no chão de vila nova de Gaia, avô e neto deixam-se ir naquela máquina de costura , vão falantes, bem dispostos, comboio e carris são linha e agulha dessa cicatriz que se aproxima do mar à medida que o Sul acontece. Em meia hora avô e neto dão à costa no apeadeiro da Aguda. A praia contorna o quartel dos bombeiros e as paredes da capela.
Bem se vê que avô e neto não fazem férias há um tempito. O Jardel, o cão, perdeu-se com certeza nas balizas do tempo.
Vai um cigarrinho para puxar pela memória dos pescadores. Resulta. Dizem que o Jardel morreu para o futebol e que o diabo do canito sentiu o adeus como se fosse gente. Morreu de desgosto num par de meses."
Vai um cigarrinho para puxar pela memória dos pescadores. Resulta. Dizem que o Jardel morreu para o futebol e que o diabo do canito sentiu o adeus como se fosse gente. Morreu de desgosto num par de meses."
*Extraído do livro Fumadores.
UM CAFÉ PODE MUDAR UMA VIDA
13.1.14
No fim de uma rua e no principio de outra, em Matosinhos, um homem tira os óculos, encara a luz, bebe o café - com o qual gasta o açúcar todo - e começa a escrever um livro. Ao livro acabou-o numa noite já de outono. E agora o que faz com ele? Vai direitinho, e orgulhosamente, para a gaveta até que melhores dias o queiram tirar de casa.
Apesar da solidão da imagem, nota-se que a mesa está cheia de gente, pelo menos tem as marcas do tempo que por ali passou e que por ali vai passando, e se o tempo passou, pessoas passaram. Bom sítio para ir buscar personagens é ao tampo descascado de uma mesinha de ferro e à sua ferrugem.
E DO OUTRO LADO, O PORTO *
9.1.14
"E do outro lado, o Porto. O bilhete de identidade dos tripeiros como um quadro desenhado na margem, imponente, duro, verdadeiro e velho, uma obra de arte acidental, a cidade mais o seu povo, semeado naquele chão".
*Extraído do livro Fumadores.
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