O HOMEM EXPERIMENTA A VIDA

19.4.14
"O sono quando tem de ser, é, não precisa de lugares carinhosos para fechar os olhos".
Indo por APPELBAUMBLOG


NASCEU UM LIVRO

19.4.14
Entraremos nos dois tempos da vida de um homem raro: as fotografias novas e os discos antigos.
Appelbaum prefere não falar. Tanto haverá da sua querida Lipstadt, na Alemanha. E menos havendo, será igualmente inesquecível a sua gloriosa jornada portuguesa, de Lisboa ao Porto, num carro tímido.

Um homem e as suas máquinas de amar sem som. Estamos perante essa história. Pouco barulho.

PS: Porque as editoras lêem devagar e porque alguns meses de silêncio voaram sobre a conclusão de "FUMADORES", este vosso amigo avança com os dedos todos e escreve "APPELBAUM", o livro que a partir de hoje acorda uma vez por dia neste endereço: APPLEBAUMBLOG.
É todo vosso, divirtam-se.






CRÓNICAS DA RUA DO MAR (2)

16.4.14

Máquina com a língua de fora no deserto. Deserto nem tanto pela areia, mais pelas pessoas que não estiveram esta manhã praia da Aguda, lugar onde o mundo acaba. O Zé e o Manel passaram por nós em passo bem disposto, são fotojornalistas, talvez nos encontremos esta noite em Vila do Conde. Enquanto eles continuaram para norte, nós fizemos o contrário e encontramos a areia no bloco operatório, com a máquina que a vai operar pronta para o serviço. No fim da Rua do Mar o areal engorda durante o inverno. Coisa que lhe acontece todos os anos desde que o molhe foi construído. Não pode chegar assim à praia.Vai emagrecer umas toneladas antes do verão. Pessoas farão o mesmo ao corpo, outras não, quando o calor der à costa.

BOB DYLAN EM ARCOZELO

15.4.14
Ali em baixo no mar de letras, uma frase, onda maior, salta do texto, cavalga o artigo. "A felicidade nunca esteve entre as minhas prioridades". Autor da onda: Bob Dylan. O homem que, diz a edição espanhola da revista Esquire (comprada em Vila nova de Gaia), não quis ser Bob Dylan. Mas é.
Bob Dylan está em Arcozelo, julgo que em cima da mesa da sala, com o rosto por cima de um título, este, "Raro, Raro". Bob Dylan não está, como deveria estar, a rodar num gira-discos, porque a casa não tem gira-discos, mas vai tocar esta noite em Arcozelo. Nem que seja num num reprodutor de música tipo livro de bolso. Blood on the Tracks de norte a sul.


ALI PARA OS LADOS DO CÉU, EM BRAGA

14.4.14
O preço das sandes de panados já foi mais amigo do bolso. Cada uma agora custa 2,5 €, no apogeu do campo da bola, freguesia de Dume. Lá no cimo do Monte Castro, comemos e calamos, porque, ao fim e ao cabo, os dois verbos vão bem um com o outro. O copo de cerveja vale o mesmo euros da época anterior. A julgar pelas redondezas, onde mais se bebe do que se come, a multidão, enquanto se embebeda, poupa. Estômagos proeminentes fazem bossa nas camisolas de futebol, umas vermelhas, outras azuis e brancas. O cortejo há-de acabar sentado nas bancadas, pronto a comer futebol com os olhos.
Foi mais ou menos isto, longe do televisor, e longe do futebol, nas costas do filme do jogo.

FUTEBOL DE RUA (12)

12.4.14
Porta da rua 31 de Janeiro, em Aveiro, tem número de banco. De banco de suplente, de homem sentado. Da primeira posição fora de campo, do primeiro número fora do onze. Doze.
Doze, a melhor profissão mundo.
E 12, na porta, mesmo ao lado da Adega do Evaristo, lugar tão bom de comer como de sentar amigos à mesa e fazer o tempo esquecer das horas. As horas, essas putas, que vão com qualquer um para qualquer lado e dormem onde calha.
É também no que dá, ir com amigos a sítios e ver coisas. Ver futebol na calçada portuguesa e depois chamar nomes ao tempo. O tempo, esse corredor de fundo, que quando se põe a contar muda de sexo.  É vinte e quatro fêmeas por dia.

HISTÓRIAS DE OUVIR COM OS OLHOS

10.4.14
Os livros.
Bem entusiasmado com Aliocha, muito curioso com o destino de Fiódor e com a sua intensa forma de ser. E o resto dos filhos, Mítia e Ivan, também me cativam até à medula.  E é pois com olhos que vou comendo a carne que Dostoievski escreveu faz tanto tanto tempo que o livro, se ele fosse gente, provavelmente já nem dele esqueleto havia.
O meu volume único d'Os Irmãos Karamazov trata de ser um livro muito físico, puxa pelos membros, pesa nos braços, mas fora isso é muito bom de ler, muito bom de ler. Estou na Rússia vai para quinze dias. E estou no século XIX. 

O MARCO

8.4.14
Já não via o Marco há doze anos e não o reconheci de imediato. Mas havia ali qualquer coisa de familiar, entre a barba, que ele não tinha, e o boné, que ele não costumava usar. Encontrei-o na rua Alfredo Allen, mesmo à porta do edifício do Parque da Ciência e da Tecnologia da Universidade do Porto. E então, o que era feito dele? Depressa fiquei a saber que o Marco tinha sumido do jornalismo de rua e entrado nos bastidores da televisão pública. Entretanto saiu de lá. Dá aulas. É realizador. Fez este vídeo com os Expensive Soul.

FIM-DE-SEMANA COM O CORPO

24.3.14
Receita: acompanhar a música com um chá quente e um dia frio; escolher um livro, andar perto de uma manta; ver o dia em câmara lenta. E já está.


Vampire Weekend – Step (Official Lyrics Video) from Rokkit on Vimeo.

O ENTARDECER SEM FILTRO

23.3.14
Era sábado e era Março.
A noite nasceu primeiro no arvoredo e o resto do anoitecer veio quando as nuvens vieram todas.O sol deixou lembranças nas lâmpadas. Os carros anoiteceram na curva, o rio chegou ao mar destravado. E a ponte ficou à margem.

O ESTRANHO ENCONTRO ENTRE BORJA E BORJA

21.3.14
Quanto mais perto do fim anda o livro, mais o professor Borja consegue ajardinar Rosa e mais dele é a história, pelo menos mais dele é a condução dos factos. O livro insiste que Jesus Cristo bebia cerveja e o professor sofre da mesma insistência.
Pouso o livro a trinta páginas da última página. Em cima da mesa, ao lado do livro, existe uma caixa com duas colheres. As colheres são da marca Borja. Vieram da Suécia. Custam pouco dinheiro. Borja, o professor, e Borja, as colheres, terão diferentes destinos. O do livro há-de acabar em breve, mas o professor ficará na memória durante o tempo que a memória deixar que ele fique. As colheres ainda têm de comer muita sopa antes antes de concluírem a história que vieram contar a esta casa em Vila Nova de Gaia, a cidade que deixa o Porto à distância que o Porto precisa para ser Porto.




CRÓNICAS DA RUA DO MAR (1)

19.3.14
































A última rua do mundo sentou homens e mulheres em cadeiras de praia, deu-lhes refrigerantes, peixe na brasa, fatias de pão com a Itália na ponta da língua, a última rua do mundo calçou o sol, deu ansiolíticos ao mar, deu  vento ao papagaio, a última rua do mundo deu chão a quem chegou e outro chão a quem partiu, e deu, a este Março que ainda vai no meio-dia, a oportunidade de comer dias a Julho e Agosto.

REVISITAR FUMADORES

18.3.14



"E agora que é que eu faço? Morro? Não só não me ensinaram a morrer como eu ao longo desta quinquilharia de anos nunca me deu para aprender a fazê-lo. E morro como? Penso muito numa dor de cabeça, rego a dor todas as manhãs e torno a regar antes de ir para a cama, a ver se a morte me começa a crescer entre as orelhas? Ou é preciso pôr adubo? E deixo a cabeça ao sol ou faço uma estufa com um boné? É que pouco percebo de jardinagem e do sentido da vida ainda menos. Com uma tesoura de poda não. O Senhor pôs-me o sangue no lado correcto do corpo, que é o de dentro, fez bem o Senhor, graças a Deus."

FUMADORES - 2013

OUTRAS PESSOAS

10.3.14
(um ensaio)

Não te ponhas já com os olhos em cima da fotografia, põe-te a comer com a boca o peixe que veio no prato, mas come com a boca fechada, mastiga como quem come as letras do jornal, é de bom serviço o silêncio, a ciência do seu uso.
E não te ponhas a olhar para mim com  olhos do tamanho de um título, as primeiras páginas e as mulheres nuas a seu tempo caducam, por muito que um dia tenham sido a mais oportuna frase do mundo.
Isso, insiste. Fecha os ouvidos como quem escolhe quatro números e encerra no cofre do quarto do hotel o passaporte e as chaves de casa. Isso, ignora. Tapa os olhos com a fotografia de uma ponte acesa a espreitar o lado Gaia da vida.

  

A DEVOLUÇÃO DAS ESPÉCIES

7.3.14


Estivemos em Berna e em Zurique. Estivemos num hotel de largas estrelas na capital da Suíça, entrevistámos o melhor que o mundo deu ao futebol na primeira década deste século e alguns anos antes. Pudemos provar uma cerveja artesanal vermelha no Altes Tramdepot e pedimos carne para acompanhar. Durante os três dias conduzimos um carro preto comprido e confortável, quase não sentimos a estrada, mas também quase não sentimos os suíços, esse povo com cara de poder ser o amortecedor do qualquer coisa no mundo. Viemos embora com chocolatinhos nos bolsos e uma nota de dez francos na carteira, porque nos pediam uma taxa de três francos para a trocar em euros.
Sim, fomos. Sim, trabalhámos. E sim, o mais o importante é que viemos e que cá estamos, de novo, dentro do melhor retrovisor de Portugal.

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