Nós numa tempestade e o mundo nisto...
3.12.14
... grande, azul, atlântico, como se nada fosse, e o azar não batesse à porta, à mesma porta, furioso, implacável, quantas vezes filho da puta, um martelo, forte, cobarde, demolidor, indiferente, silencioso, injusto, o inverso de uma tarde de praia assim, exactamente o contrário da realidade interior. É o mundo. É o mundo.
Deve ser isto o futuro
28.11.14
Porto - Um pouco à frente das três da tarde, na estação de São Bento, teclados e bateria acompanharam a viagem e uma voz guiou o comboio.
Deve ser isto o futuro, a quatro ou cinco quilómetros de 1993. E do pavilhão das Antas.
Deve ser isto o futuro, a quatro ou cinco quilómetros de 1993. E do pavilhão das Antas.
Aqui dentro
25.11.14
Aqui dentro a ponte tem nervos de aço e a terra aguenta com ela.
O rio desce, a vida sobe, aqui dentro. As casas moram de mão dada, o mar está sempre à janela e os barcos, como antigamente, namoram ao muro. Aqui dentro as pessoas mandam tudo para o caralho, mas também abraçam. E choram, choram das duas lágrimas, das boas e das outras. Aqui dentro, com uma língua muito torta, diz-se tudo muito direitinho.
escreve a lápis
24.11.14
Escreve a lápis. A frase corre mal? Apaga, reescreve. Ou melhor: fala a lápis. Se a boca fugir para a verdade, e se a verdade for um lugar inoportuno, resolve com a língua, ela é um bom apagador. Melhor ainda: pensa a lápis. Sem perguntar porquê.
O sim, o não e o silêncio. Ou talvez as editoras sejam como as crianças e não falem com desconhecidos
19.11.14
Com este sol e outras chuvas escrevi um livro sem dor de burro, fiz uma prova limpa do princípio ao fim, sabendo de onde tinha saído e muito consciente de até onde tinha pernas para ir. E fui.
Entreguei a prova da minha prova às editoras. Deixei ficar com elas uma radiografia do livro e mandei também o corpo inteiro do bicho. Concluí a minha missão, não voltei a pensar no assunto.
Talvez tenham passado nove meses sobre o tempo em que acabei de o fazer. E nada. Nem uma vírgula, quanto mais três tristes letras a dizer não ou a dizer sim. Custará assim tanto a dispensa uma palavra por parte de quem faz vida com as maratonas das cabeças dos outros? (A bem da verdade, houve uma que disse sim. E eu a essa ainda não disse que sim, nem que não, mas sempre disse alguma coisa).
Entreguei a prova da minha prova às editoras. Deixei ficar com elas uma radiografia do livro e mandei também o corpo inteiro do bicho. Concluí a minha missão, não voltei a pensar no assunto.
Talvez tenham passado nove meses sobre o tempo em que acabei de o fazer. E nada. Nem uma vírgula, quanto mais três tristes letras a dizer não ou a dizer sim. Custará assim tanto a dispensa uma palavra por parte de quem faz vida com as maratonas das cabeças dos outros? (A bem da verdade, houve uma que disse sim. E eu a essa ainda não disse que sim, nem que não, mas sempre disse alguma coisa).
Um dia vamos ser este homem e esta mulher
19.11.14
Um dia vamos ser este homem e esta mulher. Um dia não vamos ter ninguém para onde ir.
Que nesse dia, quando tiver ser, o mar esteja igual às cordas do violino e as nuvens sejam o resto. E o fim aconteça igual ao sol, longe do mundo, que seja o que tem de ser, poente, fim.
Que nesse dia, quando tiver ser, o mar esteja igual às cordas do violino e as nuvens sejam o resto. E o fim aconteça igual ao sol, longe do mundo, que seja o que tem de ser, poente, fim.
o discurso da bola enquanto mulher objecto
19.11.14
Voltei a ser enganada esta noite. Muito me agradou o convite para um ménage à trois com o Messi e o Ronaldo, mas quando cheguei ao lugar marcado vi logo que não era bem assim.
Messi é um argentino mudo, só fala comigo. O que ele me enrola. E eu vou na cantiga dele até que me apercebo que ele só me está a usar para chegar ao golo e dizer a todos que é muito bom de bola. Como ele vem sempre em pezinhos de lã eu caio na cantiga e vou com ele até ao fim do mundo, ao fundo da baliza. O Ronaldo é um português que me bate com mais força, mas que bate tão bem, que quanto mais ele me bate, mais eu acho que ele mais gosta de mim.
Como podia eu, bola perdida de amores pelo carinho de um e pelo suor do outro, negar o convite dos dois para uma noite romântica, e a três, em Manchester. Não podia. Por isso, fui.
Correu mal. Muito mal. Logo no início, correu mal. Os bandidos não só não vieram sozinhos como cada um trouxe um autocarro cheio de amigos, nem quero imaginar a minha cara no parque de estacionamento de Old Trafford, devo ter ficado com cara de bola ao poste no último minuto da final Liga dos Campeões com o jogo empatado a zero. Pois fiquei. Mas calei-me, não disse nada, cumpri o meu papel de oxigénio do jogo, subi ao relvado, entreguei-me aos dois ao mesmo tempo.
E os dois nada, nada, não me fizeram nada, não conseguiram. Dizia o Messi: isto nunca me tinha acontecido. Dizia o Ronaldo: a mim também não. Para piorar a coisa, os dois decidiram ir embora a meio do encontro, fingindo que tinham ido à casa de banho. Nunca mais apareceram. Deixaram-me em campo com uns rapazes que não sabem muito bem o que fazer comigo.
Também não é bem assim. O Quaresma sabe, quando quer sabe. E eu, só de imaginar o Paulo Bento, o Scolari e o Queiroz cheios de ciúmes, deixei o Quaresma fazer gato sapato de mim. Como a noite estava perdida e estava ainda tirei a virgindade a um miúdo que veio de França só para ver a bola.
O habitante
4.11.14
Só agora me apercebo que o habitante entrou na minha vida no dia em que o meu pai fez 65 anos. 22 de Novembro de 2013. Dei por ele a caminho da estação de comboios, ao passar por uma cama de cartão vazia, um cobertor e uma garrafa de água. Agarrei naquele homem que não existia naquele lugar e trouxe-o comigo. Baptizei-o, sentei-o no lugar vago que havia ao meu lado, comecei a puxar por ele, inventei-o, mas ainda não acabei de o parir. Chamei-lhe Appelbaum. Mora comigo. Foge de mim. Regressa. Ando a escrevê-lo num telefone.
O homem que engoliu uma cassete absurda
23.10.14
De mal com a vida, pouco lhe corria de feição, enfiou um lápis no olho esquerdo e puxou a fita atrás. Grato pela oportunidade, nem todos podem começar de novo, pensou, e é melhor agradecer enquanto é tempo, quis agradecer, mas a língua era repetitiva, castanha, a sua memória media sessenta minutos, e quando quis agradecer, não o conseguiu fazer, e então em vez de serem quatro, voltaram a ser três da tarde, a essa hora nenhuma segunda oportunidade tinha havido, pelo que a gratidão caiu do tempo, deixou de fazer sentido.
Eram de novo três horas, da tarde, a memória começava a andar para a frente, nascia, crescia, e o homem, o homem existia, play, parava, pause, guardava para si o barulho do pardais, a voz cansada do rio mais velho da cidade, rec, e, de mal consigo próprio pela perda de tempo, desatava a correr, queria chegar a tempo ao futuro, fast-forward, ao fim. O que mais lhe custava era ter de pedir um nova oportunidade, rewind, e ele, assim, tímido e só, enfiava o lápis no olho esquerdo, calava-se, sem nunca chegar a dizer... obrigado.
Depois do Porto,
21.10.14
em Matosinhos, os portuguesinhos que muito prezam os animaizinhos, mas que por extrema infelicidade dedidem cagar com o cu dos cães, enchem a rua de merda, e esta, onde as árvores declinam e os carros a afunilam, esta cujo nome vem com um Conselheiro na ponta, esta cheira mal para caralho, por mais que as senhoras caminhem pose, cão, trela e estatuto social.
A importância das ruas na compreensão do mundo
2.9.14
Fomos por uma rua sem ponta de trânsito. O Fokker, manso como um rio, levou a água ao seu moinho, do Porto a Bruxelas, tendo lá chegado pela hora do almoço, tanto em Portugal como na Bélgica, que isto de uma hora para trás ou uma hora para a frente, não transforma uma refeição naquilo que ela não é.
Um carro à nossa espera levou-nos à Rue des Enfants, em Lille. Uma rua com o mesmo nome, fosse na Bélgica em vez de ser na França, levaria de imediato as crianças por outros caminhos.
E na volta, no Porto, o Boavista, perdido da Primeira Divisão há seis anos, emitia credenciais para o extinto "Primeiro de Janeiro". Nada de anormal, afinal a morada do clube é na rua com o nome do jornal.
Um carro à nossa espera levou-nos à Rue des Enfants, em Lille. Uma rua com o mesmo nome, fosse na Bélgica em vez de ser na França, levaria de imediato as crianças por outros caminhos.
E na volta, no Porto, o Boavista, perdido da Primeira Divisão há seis anos, emitia credenciais para o extinto "Primeiro de Janeiro". Nada de anormal, afinal a morada do clube é na rua com o nome do jornal.
Um acontecimento
29.6.14
Em 1931 os vagabundos de Trafalgar Square liam. Eram livros do género de Buffalo Bill, mas não havia entre eles quem não os lesse. E até os trocavam, ao fim do dia, à porta da igreja de St. Martins, onde dormiriam, entre as "visitas" da polícia. Pela manhã barbeavam-se na fonte da praça.
George Orwell está com eles e com alguns deles há-de partir para Kent. Vão para a apanha do lúpulo. Estes diários metem dentro de um livro a parte da vida de Orwell que ficou escrita entre Agosto de 1931 e Novembro de 1948.
O empate é o pior resultado do mundo
25.6.14
Romário passa a vida dizendo que Pelé calado é um poeta. Romário calado também é um poeta, excepto quando abre a boca para dizer que Pelé calado é um poeta.
Sorte a do Brasil que golo não se mete com poema, mas com a cauda do poema, que mora junto de meias e caneleiras, nas pernas dos jogadores de futebol. Aí o Brasil é o verso que dá certo. Rima com fartura, é pontapé de bicicleta, gol de letra, estádio cheio de texto bonito, o Brasil que escreve a sua história com os pés.
Morreu está fazendo trinta e quatro anos o Pelé das palavras do Brasil. Nelson Rodrigues, camisa dez da crónica e das ideias do jogo. Nelson foi o jornalista que começou a escrever sem salário, o que não é legal (legal de legal no Brasil e legal de legal em Portugal), mas deu certo, mas que não deve fazer escola, excepto na metáfora.
Transpondo a ideia e clarificando o propósito: Portugal nessa copa é jornalista sem salário, a conta bancária está no zero. Portugal pode continuar no zero ou pode arregaçar a manga e correr a tempo de emendar o parágrafo e rescrever a história, que nesse ponto tem tudo para dar errado, mas que com a palavra certa no sítio certo, a vírgula a marcar o ritmo de jogo, pode começar por ganhar detalhe a detalhe, linha após linha, e quando der por ele, Portugal pode já estar no epílogo mais feliz do mundo.
E como faz isso? Faz como disse o Nelson Rodrigues. Assume esse ponto de partida: “o empate é o pior resultado do mundo”. Faz assumindo essa ideia e tomando a seguinte como segundo passo: “O torcedor sente-se roubado no dinheiro da entrada e inclinado a chamar os 22 jogadores, o juiz e os bandeirinhas de vigaristas. Acresce o seguinte: — de todos os empates o mais exasperante é o de 0 x 0. Essa virgindade desagradável e irredutível do escore já humilhava o público e, ao mesmo tempo, o enfurecia”.
Nelson escreveu tudo isso no conto “O craque sem idade”, do livro “À sombra das chuteiras imortais”. Assumindo assim o jogo, Portugal nem tem de ir ao conto seguinte, com esse maravilhoso título: “A conveniência de ser cobarde”. Porque aí, mesmo perdendo, se todo o mundo vir que a equipa quis ser equipa ganhando, não há problema não. A derrota será bem mais honesta do que um empate com medo de perder. Aí não tem cobardia que se ponha a olhar a linha de um título, a segunda linha mais bela do mundo, a seguir à linha de gol.
Os grandes escritores e o futebol
25.6.14
Jorge Luís Borges (a mão deve tremer ao escrever este nome), argentino, escritor de primeira linha da literatura mundial, e da última, e de todos os intervalos entre o princípio e fim de um texto, por mais argentino que fosse, e por mais incrível que isso possa parecer vindo de um argentino, vivia muito bem fora de jogo. Para ele o futebol era isto: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”.
E mais do que isto, era isto: ” onze jogadores contra onze, correndo atrás de uma bola, não são especialmente atractivos”. Mais disse, Jorge Luís Borges, a seu tempo (1889-1986): “a ideia de que haja um que perca e outro que ganhe parece-me essencialmente desagradável. Há uma ideia de supremacia, de poder, que me parece horrível”. Torna-se impossível comprrender como é que um homem que tanto sabia de dizer coisas, tão pouco tenha percebido o jogo: “que estranho que nunca se tenha atirado á cra da Inglaterra o facto de ela ter enchido o mundo com jogos estúpidos, desportos puramente físicos com o futebol. O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”.
Borges morreu quinze dias antes de Maradona ter levado a Argentina à conquista do título de campeã do mundo.
E mais do que isto, era isto: ” onze jogadores contra onze, correndo atrás de uma bola, não são especialmente atractivos”. Mais disse, Jorge Luís Borges, a seu tempo (1889-1986): “a ideia de que haja um que perca e outro que ganhe parece-me essencialmente desagradável. Há uma ideia de supremacia, de poder, que me parece horrível”. Torna-se impossível comprrender como é que um homem que tanto sabia de dizer coisas, tão pouco tenha percebido o jogo: “que estranho que nunca se tenha atirado á cra da Inglaterra o facto de ela ter enchido o mundo com jogos estúpidos, desportos puramente físicos com o futebol. O futebol é um dos maiores crimes da Inglaterra”.
Borges morreu quinze dias antes de Maradona ter levado a Argentina à conquista do título de campeã do mundo.
Adiante. Dizem as pesquisas que quando jovem Camilo José Cela (a mão deve tremer ao escrever este nome) jogava à bola e o fazia na fascinante posição de extremo esquerdo, o último da táctica, e quantas vezes, em quantas equipas, em quantas gerações, a táctica, quando chegava ao ponta esquerda já se tinha entretanto diluído pelos outros dez e já não era mais táctica, era o que sobrava do espartilho, o talento e a fantasia, enfim, o futebol.
Camilo José Cela, espanhol entre 1916 e 2002, morreu antes de poder ter visto a Espanha triunfar sobre o mundo com a bola nos pés. Mas viveu a tempo de ter escrito “Onze Contos de Futebol”, um livro do tamanho de dois cartões amarelos. Muito me atrai, no meio desse melhor onze do mundo, a peculiar situação do FC Waldetrudis Pucará: ” equipa que, levando até às últimas consequências as tácticas defensivas, jogava com dois guarda-redes. Teógenes, guarda-redes direito, e Teogonio, guarda-redes esquerdo. Valerá a pena, a quem puder, ir ao livro e perguntar pela vida destes dois entre os postes.
Uma outra frase, de um outro contro: “é raro, mãs não impossível, a morte estar escondida bandeirola de canto”. E outra, de outro: “é lei de jogadores: é tão mau rebentar como ficar a milhas”.
Camilo José Cela, espanhol entre 1916 e 2002, morreu antes de poder ter visto a Espanha triunfar sobre o mundo com a bola nos pés. Mas viveu a tempo de ter escrito “Onze Contos de Futebol”, um livro do tamanho de dois cartões amarelos. Muito me atrai, no meio desse melhor onze do mundo, a peculiar situação do FC Waldetrudis Pucará: ” equipa que, levando até às últimas consequências as tácticas defensivas, jogava com dois guarda-redes. Teógenes, guarda-redes direito, e Teogonio, guarda-redes esquerdo. Valerá a pena, a quem puder, ir ao livro e perguntar pela vida destes dois entre os postes.
Uma outra frase, de um outro contro: “é raro, mãs não impossível, a morte estar escondida bandeirola de canto”. E outra, de outro: “é lei de jogadores: é tão mau rebentar como ficar a milhas”.
Um dos meus ídolos, que ainda os vou tendo, um chileno muito especial, morreu em 2003. Foi Roberto Bolaño (a mão deve tremer ao escrever este nome), que tinha nascido em 1953. Escreveu os livros que me foram aproximando da escrita e escreveu, em alguma parte de “Putas Assassinas”, no conto Buba, o que aí vem: “eu, por exemplo, e como todo o mundo sabe, sou extremo esquerdo. Quando jogava na América Latina (no Chile e depois na Argentina) marcava uma média de dez golos por época. Aqui (Barcelona), pelo contrário, a minha estreia foi asquerosa, lesionaram-me no terceiro jogo, tiveram de operar-me os ligamentos e a minh recuperação, que em teoria ia ser rápida, foi lenta e trabalhosa, para que é que a vou contar. Senti-me mais só de que lua. Essa é que é a verdade”.
Em Inglaterra (1903-1950), George Orwell (a mão deve tremer ao escrever este nome), punha, nos seus últimos anos na Terra, o dedo no negócio do futebol, quando muito quente estava ainda o cadáver da Alemanha nazi:”na Inglaterra e nos EUA o desporto tornou-se uma atividade de pesados investimentos financeiros, capaz de atrair enormes multidões e de despertar paixões selvagens, e essa infecção alastrou-se de país em país. E foi nos desportos mais violentos e combativos, o futebol e o boxe, que ela mais se espalhou. Não há dúvida de que tudo isto está ligado à ascensão do nacionalismo, ou seja, este lunático hábito moderno de alguém se identificar com grandes estruturas de poder, e passar a enxergar todas as coisas do ponto de vista do prestígio competitivo”.
Orwell chegou a dizer que “futebol é a continuação da guerra por outros meios. É uma imitação da guerra”.
E de Portugal, isto, terminado por agora a ronda, mas prometendo voltar ao assunto um destes. António Lobo Antunes (a mão deve tremer ao escrever este nome), que felizmente ainda não chegou ao fim da data, e que nasceu em 1942, disse ao jornal espanhol El País, numa entrevista que foi replicada pelo MaisFutebol, de onde retiro estes últimos trechos, maravilhas sobre Messi: “nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador. Escrevo à mão, porque é como bordar. Gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal que é escrever, do desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres e Messi. Vi-o há pouco tempo, pela televisão, no Mundial de Clubes. Quem me dera escrever como Messi joga futebol. A bola parece amá-lo”.
Orwell chegou a dizer que “futebol é a continuação da guerra por outros meios. É uma imitação da guerra”.
E de Portugal, isto, terminado por agora a ronda, mas prometendo voltar ao assunto um destes. António Lobo Antunes (a mão deve tremer ao escrever este nome), que felizmente ainda não chegou ao fim da data, e que nasceu em 1942, disse ao jornal espanhol El País, numa entrevista que foi replicada pelo MaisFutebol, de onde retiro estes últimos trechos, maravilhas sobre Messi: “nunca servi para outra coisa. Não sirvo para a vida prática. Nem sequer tenho computador. Escrevo à mão, porque é como bordar. Gosto do cheiro do papel, gosto dessa coisa artesanal que é escrever, do desenho das letras. Há três ou quatro coisas importantes na vida: os livros, os amigos, as mulheres e Messi. Vi-o há pouco tempo, pela televisão, no Mundial de Clubes. Quem me dera escrever como Messi joga futebol. A bola parece amá-lo”.
MEMÓRIAS DA CATALUNHA
3.6.14
O avião, lápis que desenha viagens no céu, não risca nada em terra.
Barcelona está lá em baixo, feita à mão, e eu, que já não a via desde aqueles dois voos entre Lisboa e Lviv, e entre Lisboa e Donetsk, durante os quais li a Cidade dos Prodígios, do Eduardo Mendoza, voltei a sentir que a tinha ali debaixo dos pés, à espera de acontecer.
Em Barcelona eu podia ser casa. Eu podia fazer como as árvores, furar o chão, ser a raiz de mim próprio. Há-de ser do chão, pó do meu pó. Sei que é assim. Nunca o saberei explicar em melhores modos.
Barcelona come o que eu comeria todos os dias. Bebe o mesmo malte, as mesmas uvas. E até o sol que ela tem é da cor do meu. Entretanto, tiremos a cabeça do ar, aterremos de barriga no asfalto de El Prat. As rodas pousam e deixam o resto do trabalho às pernas. Andemos do avião para fora, a vida que eu não tive está do outro lado da porta, ao fundo das escadas.
Entro na cidade como estivesse a entrar nas minhas próprias veias, a viajar no meu sangue e nascer do nada, como da outra vez, em 1974, era março e era Vila Nova de Gaia.
Encontrei na segunda noite a música que mexe com as raízes da minha pessoa. E as palavras que a música canta. Dancei, saltei, devo ter semeado lágrimas em frente ao palco. Concertei-me.
Barcelona está lá em baixo, feita à mão, e eu, que já não a via desde aqueles dois voos entre Lisboa e Lviv, e entre Lisboa e Donetsk, durante os quais li a Cidade dos Prodígios, do Eduardo Mendoza, voltei a sentir que a tinha ali debaixo dos pés, à espera de acontecer.
Em Barcelona eu podia ser casa. Eu podia fazer como as árvores, furar o chão, ser a raiz de mim próprio. Há-de ser do chão, pó do meu pó. Sei que é assim. Nunca o saberei explicar em melhores modos.
Barcelona come o que eu comeria todos os dias. Bebe o mesmo malte, as mesmas uvas. E até o sol que ela tem é da cor do meu. Entretanto, tiremos a cabeça do ar, aterremos de barriga no asfalto de El Prat. As rodas pousam e deixam o resto do trabalho às pernas. Andemos do avião para fora, a vida que eu não tive está do outro lado da porta, ao fundo das escadas.
Entro na cidade como estivesse a entrar nas minhas próprias veias, a viajar no meu sangue e nascer do nada, como da outra vez, em 1974, era março e era Vila Nova de Gaia.
Encontrei na segunda noite a música que mexe com as raízes da minha pessoa. E as palavras que a música canta. Dancei, saltei, devo ter semeado lágrimas em frente ao palco. Concertei-me.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





