A CASA

12.1.15
Do pequeno lanço de escadas, sentado no último de oito degraus, no mais alto, vejo o sol a navegar a tarde sobre uma vontade mar, lá ao fundo. É a porta do meu prédio. É o meu novo melhor lugar do mundo. Tenho lá ido com um livro, um café, um leitor de música (que por acaso existe no meu telefone) e as chaves do meu rés-do-chão.

Não sei se a música consegue acalmar o mundo. A mim consegue. descobri há dias, pouco depois de ter descoberto o poder curativo da minha escadaria, o disco Asleep Versions, do Jon Hopkins.



Chega a ser curiosa esta capa, com o seu fim  de dia igual ao meu, vermelho ao mar, e o homem branco a levitar, como eu, quando me sento em frente em frente ao sul e ao ocidente, eu, um livro, um cigarro, um café e mais ninguém, com a minha transfusão de música, que a faço a partir dos ouvidos, e a sinto nas veias, respiro melhor, escuto melhor, vejo melhor, observo, e deixo-me estar, até ao fim do café e mais além.

Não sei se os livros conseguem acalmar o mundo. A mim conseguem. Tenho "Os Factos" na mão. Estou a conhecer os pais do Philip Roth e o tio Bernie, estou na alvorada do livro, estou a percorrer a judiaria onde ele cresceu. E estou por aqui a manter um diário que não vai ter os dias todos, a contraria uma aversão antiga que é o desgosto de escrever na primeira pessoa do singular.

Todas as mulheres nuas do mundo

9.1.15
Cruzei-me duas vezes em 2014 com Nicholas Cave. Em Barcelona e no Porto. Nas duas ocasiões, ele, no seu impecável fato preto de cabaré, ele, nos seus sapatos de patife ( como diria o Artur Carvalho, e expressão do meu agrado), ele, mandou no palco e na multidão, em festivais com primavera e som.

Há uma mulher na capa do disco Push the Sky Away, de 2013. Uma mulher nua e o Nicholas. Ele e o seu impecável ar de põe-te no caralho, já. Ela e o corpo dela a caminho da luz. E no disco, no disco há músicas que merecem todas as mulheres nuas do mundo.


o animal muda o homem

9.1.15
Confirma-se. Aos 40 anos, a vida está a dar a volta. Dei com a primeira mudança radical à mesa, em Agosto, já um casamento ia adiantado: pela primeira vez na vida comi leitão e gostei. E eu, que detestava o porquinho, que o detestei durante 40 anos e mais uns dias, ou mais uns meses, não só comecei a gostar nessa noite com fiz questão de continuar a gostar no almoço do dia seguinte. E do que me lembro, gostei mais três ou quatro pratos daquilo durante o bufett.

A outra reviravolta que me aconteceu foi na música. pela primeira vez na vida gostei de um disco do Neil Young. E gostei tanto que não gostei apenas de um, gostei de dois: Storytone e Mixed Pages of Storytone. Um com e outro sem orquestra. As mesmas músicas. E duas belíssimos capas.

Este animal está a mudar. Os sentidos.





Há discos que me dançam,

26.12.14
outros que me põem a escrever. Este é os dois lados da mesma música.

ainda ontem

6.12.14

Pessoas que se encontram ao andar por cima de uma dia: os velhotes da lota, na Praia da Aguda, e as suas certezas, sobre a terra e sobre o mar, a bola e prisão de Sócrates. E mais se encontra: a menina Leonor com uma bola para o bebé João e gata ao colo que o assusta e o põe ao colo do pai. Outros ainda: uma fila de leões numa pizzaria à porta do estádio do Bessa. Mais: Os ricos contra os pobres, num relvado sintético, onde os ricos, e os seus melhores meios de chegar aos golos, jogam o jogo da lógica, mais do que o jogo do futebol. E praticamente mais ninguém, a não ser o povo na bancada, o jornalismo na tribuna e os alegadamente importantes no camarote.

Nós numa tempestade e o mundo nisto...

3.12.14
... grande, azul, atlântico, como se nada fosse, e o azar não batesse à porta, à mesma porta, furioso, implacável, quantas vezes filho da puta, um martelo, forte, cobarde, demolidor, indiferente, silencioso, injusto, o inverso de uma tarde de praia assim, exactamente o contrário da realidade interior. É o mundo. É o mundo.

Deve ser isto o futuro

28.11.14
Porto - Um pouco à frente das três da tarde, na estação de São Bento, teclados e bateria acompanharam a viagem e uma voz guiou o comboio.
Deve ser isto o futuro, a quatro ou cinco quilómetros de 1993. E do pavilhão das Antas.





Aqui dentro

25.11.14


Aqui dentro a ponte tem nervos de aço e a terra aguenta com ela.
O rio desce, a vida sobe, aqui dentro. As casas moram de mão dada, o mar está sempre à janela e os barcos, como antigamente, namoram ao muro. Aqui dentro as pessoas mandam tudo para o caralho, mas também abraçam. E choram, choram das duas lágrimas, das boas e das outras. Aqui dentro, com uma língua muito torta, diz-se tudo muito direitinho.

escreve a lápis

24.11.14
Escreve a lápis. A frase corre mal? Apaga, reescreve. Ou melhor: fala a lápis. Se a  boca fugir para a verdade, e se a verdade for um lugar inoportuno, resolve com a língua, ela é um bom apagador. Melhor ainda: pensa a lápis. Sem perguntar porquê.


O sim, o não e o silêncio. Ou talvez as editoras sejam como as crianças e não falem com desconhecidos

19.11.14
Com este sol e outras chuvas escrevi um livro sem dor de burro, fiz uma prova limpa do princípio ao fim, sabendo de onde tinha saído e muito consciente de até onde tinha pernas para ir. E fui.
Entreguei a prova da minha prova às editoras. Deixei ficar com elas uma radiografia do livro e mandei também o corpo inteiro do bicho. Concluí a minha missão, não voltei a pensar no assunto.
Talvez tenham passado nove meses sobre o tempo em que acabei de o fazer. E nada. Nem uma vírgula, quanto mais três tristes letras a dizer não ou a dizer sim. Custará assim tanto a dispensa uma palavra por parte de quem faz vida com as maratonas das cabeças dos outros? (A bem da verdade, houve uma que disse sim. E eu a essa ainda não disse que sim, nem que não, mas sempre disse alguma coisa).


Um dia vamos ser este homem e esta mulher

19.11.14
Um dia vamos ser este homem e esta mulher. Um dia não vamos ter ninguém para onde ir.
Que nesse dia, quando tiver ser, o mar esteja igual às cordas do violino e as nuvens sejam o resto. E o fim aconteça igual ao sol, longe do mundo, que seja o que tem de ser, poente, fim.

o discurso da bola enquanto mulher objecto

19.11.14


Voltei a ser enganada esta noite. Muito me agradou o convite para um ménage à trois com o Messi e o Ronaldo, mas quando cheguei ao lugar marcado vi logo que não era bem assim.
Messi é um argentino  mudo, só fala comigo. O que ele me enrola. E eu vou na cantiga dele até que me apercebo que ele só me está a usar para chegar ao golo e dizer a todos que é muito bom de bola. Como ele vem sempre em pezinhos de  lã eu caio na cantiga e vou com ele até ao fim do mundo, ao fundo da baliza. O Ronaldo é um português que me bate com mais força, mas que bate tão bem, que quanto mais ele me bate, mais eu acho que ele mais gosta de mim.
Como podia eu, bola perdida de amores pelo carinho de um e pelo suor do outro, negar o convite dos dois para uma noite romântica, e a três, em Manchester. Não podia. Por isso, fui.

Correu mal. Muito mal. Logo no início, correu mal. Os bandidos não só não vieram sozinhos como cada um trouxe um autocarro cheio de amigos, nem quero imaginar a minha cara no parque de estacionamento de Old Trafford, devo ter ficado com cara de bola ao poste no último minuto da final Liga dos Campeões com o jogo empatado a zero. Pois fiquei. Mas calei-me, não disse nada, cumpri o meu papel de oxigénio do jogo, subi ao relvado, entreguei-me aos dois ao mesmo tempo.
E os dois nada, nada, não me fizeram nada, não conseguiram. Dizia o Messi: isto nunca me tinha acontecido. Dizia o Ronaldo: a mim também não. Para piorar a coisa, os dois decidiram ir embora a meio do encontro, fingindo que tinham ido à casa de banho. Nunca mais apareceram. Deixaram-me em campo com uns rapazes que não sabem muito bem o que fazer comigo.
Também não é bem assim. O Quaresma sabe, quando quer sabe. E eu, só de imaginar o Paulo Bento, o Scolari e o Queiroz cheios de ciúmes, deixei o Quaresma fazer gato sapato de mim. Como a noite estava perdida e estava ainda tirei a virgindade a um miúdo que veio de França só para ver a bola.

O habitante

4.11.14
Só agora me apercebo que o habitante entrou na minha vida no dia em que o meu pai fez 65 anos. 22 de Novembro de 2013. Dei por ele a caminho da estação de comboios, ao passar por uma cama de cartão vazia, um cobertor e uma garrafa de água. Agarrei naquele homem que não existia naquele lugar e trouxe-o comigo. Baptizei-o, sentei-o no lugar vago que havia ao meu lado, comecei a puxar por ele, inventei-o, mas ainda não acabei de o parir. Chamei-lhe Appelbaum. Mora comigo. Foge de mim. Regressa. Ando a escrevê-lo num telefone.



O homem que engoliu uma cassete absurda

23.10.14





















De mal com a vida, pouco lhe corria de feição, enfiou um lápis no olho esquerdo e puxou a fita atrás. Grato pela oportunidade, nem todos podem começar de novo, pensou, e é melhor agradecer enquanto é tempo, quis agradecer, mas a língua era repetitiva, castanha, a sua memória media sessenta minutos, e quando quis agradecer, não o conseguiu fazer, e então em vez de serem quatro, voltaram a ser três da tarde, a essa hora nenhuma segunda oportunidade tinha havido, pelo que a gratidão caiu do tempo, deixou de fazer sentido.

Eram de novo três horas, da tarde, a memória começava a andar para a frente, nascia, crescia, e o homem,  o homem existia, play, parava, pause, guardava para si o barulho do pardais, a voz cansada do rio mais velho da cidade, rec, e, de mal consigo próprio pela perda de tempo, desatava a correr, queria chegar a tempo ao futuro, fast-forward, ao fim. O que mais lhe custava era ter de pedir um nova oportunidade, rewind, e ele, assim, tímido e só, enfiava o lápis no olho esquerdo, calava-se, sem nunca chegar a dizer... obrigado.

Depois do Porto,

21.10.14













em Matosinhos, os portuguesinhos que muito prezam os animaizinhos, mas que por extrema infelicidade dedidem cagar com o cu dos cães, enchem a rua de merda, e  esta, onde as árvores declinam e os carros a afunilam, esta cujo nome vem com um Conselheiro na ponta, esta cheira mal para caralho, por mais que as senhoras caminhem pose, cão, trela e estatuto social.

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