verlaine e Gainsbourg

8.12.20

Un jour n´importe quand, Verlaine escreveu antes de tudo, a música. E se a memória estiver realmente alinhada com o tempo, num outro dia qualquer Gainsbourg escreveu numa canção o nome de Verlaine e cantou-a. Isto no fundo é uma cenoura. Motivação versus inércia.

Coisas que podiam ser assobiadas (2)

25.11.20

Um saco do Continente a tiracolo, dois sacos de plástico na mão esquerda, a carteira e um derradeiro saco de compras na mão direita. Mais detalhe menos detalhe,  uma empregada de limpeza do aeroporto do Porto chegou ao local de trabalho. “Deve vir aí alguém importante”, disse, no único momento de incontinência verbal, ao passar pelos polícias de serviço, e deve ter-lhe custado imenso conter-se, mas estavam ali demasiadas câmaras de televisão, tripés, jornalistas e até máquinas fotográficas, e ela tinha de comportar-se. De resto, nem bom dia, nem boa tarde. 

Boa tarde teria sido mais apropriado. 

A voz redireccionou a nossa atenção. Passámos, em vez do horizonte, a olhar o lado do aeroporto, encostados ao posto de sentinela. Umas calças de fato de treino escuras, provavelmente cinzentas, uma grossa camisola de lã cor de rosa, um penteado oleoso pousado na linha dos ombros, uma passada rude, um corpo pesado e baixo. Posto isto a nossa concentração profissional regressou à procedência quando as sirenes das motas da polícia se anunciaram. O autocarro do FC Porto apareceu de imediato. Certas tardes preparam-se, sobem ao palco, executam o seu número de ilusionismo, desaparecem. Magia pura.    


Coisas que podiam ser assobiadas (1)

23.11.20

Um dia o J. chegou a casa e a casa tinha ido ao supermercado. Ficou triste. Espantado. 

No lugar da casa havia agora um imenso espaço vazio. Só o jardim continuava no sítio. Bem, na verdade a lavandaria, a biblioteca e a garagem também continuavam no sítio. Quem  percebeu que a casa tinha ido ao supermercado foi o bisavó. Ela chama-se M. J. e tem oitenta e oito anos. O J. ficou muito curioso. A bisavó ficou cheia de vontade de partilhar com ele tudo o que tinha visto. Era inacreditável, disse-nos. 

A casa fartou-se de estar sozinha durante o dia. Pegou na chave do carro, colocou um casaco pelos ombros, calçou umas botas muito grandes e lá foi ela. O chão até abanou.  


Fresca

26.8.20

 Não sei se posso comericar sem levar com um balde de rancor pelas costas a baixo ou ofender profundamente os indignautas, mas a verdade é que ontem pela noitinha comeriquei como se não houvesse hoje. Pão de água muito bem esquartejado, queijo barato, cereais de baixo teor calórico cuja embalagem só lhe faltou dizer que o cereal foi ao ginásio, melão talhado em figura geométrica desconhecida, e , não menos importante, exigindo a mesa improvisada e tardia vinho ou cerveja, só porque me apeteceu, beberiquei água cor de goiaba e toranja. Fresca

Weekend Affair

25.8.20

Telefonaram-me de Matosinhos. O carro seguia numa das autoestradas que divergem do litoral para o interior. Para trás ficaram cidades como Famalicão, Braga, Barcelos, Ponte de Lima, que apenas serpenteámos. O asfalto não as chega a esventrar, só as torna mais rápidas e acaba onde o mandaram acabar. Isso normalmente acontece numa caixa registadora instalada no fim da linha, a alguns quilómetros do destino. Contando comigo éramos dois dentro do carro. Continuamos a somar quilómetros e dentro cada um desses quilómetros conversámos sobre vários assuntos: experiências de trabalho, óculos de leitura, lentes progressivas, peripécias verificadas no estádio da Luz antes final da Liga dos Campeões no domingo, ontem portanto. 

Por mais rápida que uma autoestrada ponha uma cidade, há sempre a possibilidade de lá chegarmos atrasados, especialmente se nos atrasarmos. E de facto, neste caso, chegamos atrasados, mas o atraso não nos penalizou. Para o propósito da nossa viagem chegámos a tempo, apesar termos comparecido no local combinado com vinte minutos em cima da hora marcada. 

À noite encontrei um disco de 2015 dentro de uma arca cheia de discos e de filmes. É uma colectânea de uma revista francesa especializada em música. Tirar o disco do plástico que o envolvia deu algum trabalho. Tem catorze músicas, catorze personalidades sonoras (e não só) diferentes. Stuck no Land é uma música extraída do disco Welcome To Your Fate de uma banda francesa chamada Weekend Affair.   

Arcozelo, Islândia

18.10.19
O outono regressou e agora a música do Olafur Arnalds está outra vez afinada. Consigo ver pelo postigo do escritório o maravilhoso penteado afro da tangerineira no jardim, algumas árvores chamam por mim, e nesta aprecio violinos e pianos calmíssimos quando pára de chover. Entretenho-me com a sinfonia das gotas de água na folhagem, os movimentos súbitos e as quedas, os comportamentos sedentários.
Estamos todos cinzentos: a capa do livro de jornalismo, o céu, a minha camisola e o seu carapuço, a música, a reportagem dos incêndios num televisor sem som, a almofada do sofá, a secretária, os pés da cadeira, os meus pés, a capa do suplemento cultural, a primeira página do jornal e a temperatura. Mas o verde é mais verde em tudo e mais do que tudo na relva, o outro livro em lista de espera ficou absolutamente alaranjado. A luz de outubro não faz grandes discursos, mas está atenta a todos os pormenores e deixa-os brilhar.
Tenho uma árvore no jardim. Quase não há árvores na Islândia. Num velho ditado pré-reflorestação, contado aos turistas em jeito de anedota, eles costumam dizer: “se virem na Islândia três árvores juntas, estão a ver uma floresta”. Faltam-me duas árvores para ter uma floresta. 

Algumas anotações corporais:

15.10.19
a) dores expansivas na planta dos pés. Afinal prolongam-se. Após uma conclusão inicial e errónea, percebo, sobem pelo lado interior, dão a volta ao osso do dedo maior, parecido com um pequeno tornozelo, já agora, e descem pela beira dos dedos, espalham a dor a descer, é tudo muito rápido, conseguem ver melhor o que estou a dizer se conseguirem recordar qualquer excerto de filme com montanhas russas, percebemos melhor o que queremos dizer ao dizermos descer, pois então a dor empola e expira, como um pulmão a pulmonar, talvez mais forte, como se batessem dois corações nos pés, e doem; b) as pálpebras não se aguentam em pé, a retina a esta hora é feita de vidro laminado, e o vidro nunca se deu muito bem com a pele, o vidro nunca se deu muito bem com ninguém durante séculos, tirando as janelas, mas com tempo aprendeu a fazer garrafas e a ajudar automóveis e telefones, mas o problemas do vidro é que o vidro é de vidro e parte, tirando isso nada contra ele e até muito obrigado por tudo, mesmo se me risca a pele das pálpebras; c) o invisível crescimento dos pelos das pernas voltou a aparecer, vejo pequenos riscos negros, chuva miúda de uma banda desenhada, um pouco por toda a parte e tento compreender se o invisível crescimento da relva do jardim é comparável, tento no fundo perceber qual dos dois tem maior velocidade de ponta, mas depois penso melhor, sinto que levei o meu tempo livre a um stand de automóveis e saio dali a todo o gás, quando digo dali, digo daquele pensamento; d) um ligeiro formigueiro na barriga das pernas, mas nada de significativo; e) procuro cafeína para relacionamento breve.

Leio dois

15.10.19
livros a duas velocidades, um faz cem anos no próximo ano, o outro fez agora trinta e cinco, leio muito mais devagar, e seguramente com muito mais atenção, o primeiro e um pouco mais a correr o segundo, porque o primeiro há-de continuar por cá a acolchoar não só próximas leituras, como também o meu estudo vagabundo do ofício, mas não é tudo: o primeiro tem o tempo inteiro lá escrito.  O segundo é muito bom seguramente, e um belo narrador do seu tempo com certeza, e de leitura sem escavações, mas o outro, que terá cada vez menos leitores à medida que os séculos se apresentem ao serviço, é uma inesgotável fonte de conhecimento na relação entre o homem e a palavra.

COMEÇOU A SER

15.10.19
colocada a hipótese de irmos a Braga no sábado à tarde ao balcão do restaurante de um centro empresarial no Porto. Almoçamos bacalhau com broa. As empregadas de mesa trouxeram diversos  jarros de vinho branco para a mesa, a conversa fluiu cristalina e entremeada por segmentos hilariantes de passado, atada por fortes laços de amizade, reconstruiu-se ali à beira dos guardanapos de pano e dos pratinhos com palitos uma década caída em desuso, as goivas dos entalhadores, apareceram dedos sapateiros furados de vez em quando pelas agulhas deeeeste tamanho a mostrarem as feridas de guerra, também vieram a lume algumas notícias com defeito fabricadas em jornalismo tosco. Impunha-se um bom café e um bom café começa no aroma e termina na cobertura espessa. A hipótese então, colocou-a ao balcão já em tempo de despedidas um dos mais novos antigos pugilistas deste encontro anual. A sua esteira propunha uma visita ao ginásio do bairro onde mora e procura disseminar, com luvas, comportamentos exemplares em contextos difíceis. Três dias mais tarde a história viajou pela primeira vez de máquina de filmar. Trouxemos connosco umas boas duas de horas de gravação. Entretanto anoitecera. Reduzimos, no dia seguinte, as duas horas de filme a três minutos de reportagem. E uma semana bem pesada, sem tirar nem por, sobre a colocação de uma hipótese, a hipótese converteu-se em alinhamento de jornal televisivo e posteriormente numa troca sentida de mensagens. Humanos em fase de construção, construindo-se.  

Viemos para o Algarve há uma semana

4.9.19
e esta tarde voltei a descer os degraus cimentados na arriba, por uma viela murada entre terrenos privados e as suas casas de veraneio, até à praia Maria Luísa, muito se parece a descida com as minhas (cada vez mais vivas) reminiscências do anos 80, mas como é óbvio a realidade não mudou a pique de sítio, como a paisagem parada no tempo sugere, continuamos, sulcando evidências, a espraiar o dia 27 de agosto de 2019, sosseguem. O cimento tosco, porém duradouro, em absoluto contraste com os sempre bem-penteados pinheiros mansos ou os tranquilos jardins de verão;seja a escadaria cimentada à pressa de serventia à praia ou as paredes primitivas que ainda se faziam por cá não vai assim há tanto tempo. 
 A temperatura da água subiu nos últimos dias. Hoje uma alforreca morta foi notícia de metro quadrado no metro quadrado do sítio onde fizemos praia, na Rocha Baixinha. Com a água pela cintura, delgada e atlética, uma nadadora-salvadora, com o seu fato de banho cor de laranja rematado a amarelo nas extremidades, a sua pela bronzeada, o cabelo à brisa e um saco de plástico castanho de duas asas (perfurado para o efeito), abrindo-as, apanhou uma razoável quantidade de água do mar, bem como o cadáver de alforreca detectado anteriormente por banhistas vivos enquanto boiava morta no caldo Atlântico do sotavento a escassos metros da costa, em zona de pé, utilizando linguagem popular e assertiva para o efeito. Isso foi durante a manhã, durante a nossa paciente espera pela descida da maré e (causa e efeito) subida da praia em termos de comprimento, com os guarda-sóis já agrafados ao chão, mas com as toalhas de sobreaviso em porto mais ou menos seguro, pousadas em circunstâncias ligeiramente elevadas, do género sacos de praia, cadeiras de leitura, não fosse um dos últimos avanços de preia-mar ter ficado para mais tarde, como de resto veio a suceder uma vez, outra e mais outra, não sei quantas vezes durante a aproximação dos ponteiros do relógio à parte de tarde. Dezenas de curiosos rodearam o saco de plástico castanho, a nadadora e a alforreca, fora de água. A roda desfez-se em poucos minutos, a curiosidade voltou à toalha, ao mar, ao jogo de raquetes, à bola de Berlim (que por aqui aqui se chama ComCreme), ao castelo de areia, ao Jornal de Notícias, ao livro e ao livro, partilhando a informação com os vários graus de parentesco de cada um, diluindo-se no tempo em menos de meia hora, ao almoço era como se não tivesse acontecido até, e continuaria a sê-lo se não estivesse para aqui a sacudir a areia das pernas (e do dia)antes entrar em casa. Porta fechada.

Domingo. O elemento mais perceptível

4.9.19
é o vento. Trespassa a música, mas contorna a árvore, uma árvore de tangerinas, em pousio nesta altura do ano. Tocava há duas linhas a música 8 Circle, do grupo Bon Iver, uma exportação do Canadá. No sopé da árvore temos uma mesa e duas cadeiras feitas de ferro e madeira. Entretanto começou a cantar o Nick Drake. O Spotify diz-me que a música que se chama Northern Sky. Ela também se entende muito bem com o vento. Entrou agora o Sufjan Stevens na rajada, com Visions of Gideon. Aprecio esta distribuição aleatória  de músicas no mesmo país genético. Algumas aves dançam no céu, que a esta hora apenas consegue vestir um pano de fundo cinzento. O vento empurra o frio de alguma parte distante, torna a manga curta muito curta. Começo a pensar em casacos.

O que fica da cadência contemplativa, ainda, é o chilrear disperso de diferentes tipos de ave. A relva tem crescido bastante nos últimos dias.

Às vezes os peixes

4.9.19
não sabem que estão a nadar. Por falar nisso, já comia uma peravilhosa peça de fruta, de preferência acubada de pintar, em vez de maçãcrar a rotina, de maçãcrar a rotina com repetições, repetições. Com repetições. Às vezes os peixes não sabem que estão a nadar. Por falar nisso, o texto publicitário é um animal diferente, contou-mo uma muitobemescrita página, filha de um muitobemescrito livro, muitobemescrito a bordo de um cruzeiro 7NC, seven and sea, livro agorapousado a bordo do sofá muitobemcarpinteirado da sala, e não pergunto às legendas de uma série de televisão o que elas querem dizer quando dizem às vezes os peixes não sabem que nadar, nem me esqueço dos navios atracados no livro, tão brancos e limpos que pareciam ter sido fervidos. Uma vez uma linha do Foster Wallace e um quadro do Picasso foram a um concerto do James Blake.



Absolutamente nada (1)

4.9.19

Por causa de uma guitarra azul, o escritor irlandês John Banville concedeu uma entrevista à New Yorker. O resultado da conversa foi publicado a 18 de setembro de 2015. Faz parte das afinações editoriais e do mundo dos negócios.
Gosto de caçar ideias sem desperdiçar uma bala, como foi o caso desta leitura oblíqua pelas duas horas da manhã, deitado de costas no planeta, como faço sempre antes de dormir. Aí a minha vida dá uma volta de 180 graus. Bem, mas Banville, natural de Wexford, 72 anos, diz a propósito do protagonista do livro que o acalmou em jeito de gentileza para com o palato do leitor.
Diz também que a idade não traz sabedoria, mas confusão. Foi aqui que guardei a bala no bolso, mestrado em confusão como sou. E pronto, foi isto. E um bocadinho de fisioterapia à minha prosa, que foi operada ao pé esquerdo  e não tem saído muito de casa.

O diário visita o diário passado

30.10.17
Quem quiser, pode vir comigo. Mas é melhor trazer um agasalho. Vamos ali ao ano de 2001 visitar o mês de outubro, no dia 27, quando ele esteve, cheio de frio, a ver um jogo de futebol em Paços de Ferreira. Vamos procurar uma cicatriz.
Sim, tem futebol em que o jogo tira a baliza do mapa, mas naquele jogo não, naquele a baliza fazia parte do caminho. Por lá passaram seis golos. A cicatriz, bem a cicatriz está no mesmo síto, quem desce um palmo pela perna esquerda, já em território do músculo femoral, arraçada de pastor alemão, como sempre.

Frankfurt, ida

24.10.17
Uma das grandes vantagens dos aeroportos internacionais é a possibilidade de encontrar pessoas, e uma das grandes vantagens de encontrar pessoas no mundo desconhecido é a possibilidade de encontrar pessoas portuguesas, como em Frankfurt, numa paragem de seis horas entre aviões.


Travei a leitura de um parágrafo de um extenso livro com a ponta do dedo indicador direito para deixar passar o comboio de informações atrelado à voz da funcionária do aeroporto, difundida através de um esclarecedor sistema de áudio, sobre voos e tabelas horárias. Quando me vi a embarcar de novo na ficção, levantando o dedo, o serviço informativo atropelou o livro para nos dizer que uma carteira fora encontrada algures e pediu ao passageiro pelo nome que a fosse recuperar. Do nome, adquiri conhecimento suficiente para saber que não era o meu, sem ter percebido por quem chamava o aviso. Em linha de vista, e em plano americano, apareceu um rapaz vestido de preto com o nome Dagobert escrito na camisola. Também não era ele.

Procurarei escandir da melhor forma o passo seguinte: pela segunda vez entre as seis horas de espera, o tempo acabou por me conduzir, pelo meu próprio pé,  à casa de banho do homens e pela segunda vez uma mulher dentro de um uniforme verde limpava o chão como se nada fosse, circundada por urinóis pejados de utilizadores em trânsito fisiológico. E assim se acrescentou mais um capítulo ao conceito de normalidade.



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