Un jour n´importe quand, Verlaine escreveu antes de tudo, a música. E se a memória estiver realmente alinhada com o tempo, num outro dia qualquer Gainsbourg escreveu numa canção o nome de Verlaine e cantou-a. Isto no fundo é uma cenoura. Motivação versus inércia.
Coisas que podiam ser assobiadas (2)
Um saco do Continente a tiracolo, dois sacos de plástico na mão esquerda, a carteira e um derradeiro saco de compras na mão direita. Mais detalhe menos detalhe, uma empregada de limpeza do aeroporto do Porto chegou ao local de trabalho. “Deve vir aí alguém importante”, disse, no único momento de incontinência verbal, ao passar pelos polícias de serviço, e deve ter-lhe custado imenso conter-se, mas estavam ali demasiadas câmaras de televisão, tripés, jornalistas e até máquinas fotográficas, e ela tinha de comportar-se. De resto, nem bom dia, nem boa tarde.
Boa tarde teria sido mais apropriado.
A voz redireccionou a nossa atenção. Passámos, em vez do horizonte, a olhar o lado do aeroporto, encostados ao posto de sentinela. Umas calças de fato de treino escuras, provavelmente cinzentas, uma grossa camisola de lã cor de rosa, um penteado oleoso pousado na linha dos ombros, uma passada rude, um corpo pesado e baixo. Posto isto a nossa concentração profissional regressou à procedência quando as sirenes das motas da polícia se anunciaram. O autocarro do FC Porto apareceu de imediato. Certas tardes preparam-se, sobem ao palco, executam o seu número de ilusionismo, desaparecem. Magia pura.
Coisas que podiam ser assobiadas (1)
Um dia o J. chegou a casa e a casa tinha ido ao supermercado. Ficou triste. Espantado.
No lugar da casa havia agora um imenso espaço vazio. Só o jardim continuava no sítio. Bem, na verdade a lavandaria, a biblioteca e a garagem também continuavam no sítio. Quem percebeu que a casa tinha ido ao supermercado foi o bisavó. Ela chama-se M. J. e tem oitenta e oito anos. O J. ficou muito curioso. A bisavó ficou cheia de vontade de partilhar com ele tudo o que tinha visto. Era inacreditável, disse-nos.
A casa fartou-se de estar sozinha durante o dia. Pegou na chave do carro, colocou um casaco pelos ombros, calçou umas botas muito grandes e lá foi ela. O chão até abanou.
Fresca
Não sei se posso comericar sem levar com um balde de rancor pelas costas a baixo ou ofender profundamente os indignautas, mas a verdade é que ontem pela noitinha comeriquei como se não houvesse hoje. Pão de água muito bem esquartejado, queijo barato, cereais de baixo teor calórico cuja embalagem só lhe faltou dizer que o cereal foi ao ginásio, melão talhado em figura geométrica desconhecida, e , não menos importante, exigindo a mesa improvisada e tardia vinho ou cerveja, só porque me apeteceu, beberiquei água cor de goiaba e toranja. Fresca
Weekend Affair
Telefonaram-me de Matosinhos. O carro seguia numa das autoestradas que divergem do litoral para o interior. Para trás ficaram cidades como Famalicão, Braga, Barcelos, Ponte de Lima, que apenas serpenteámos. O asfalto não as chega a esventrar, só as torna mais rápidas e acaba onde o mandaram acabar. Isso normalmente acontece numa caixa registadora instalada no fim da linha, a alguns quilómetros do destino. Contando comigo éramos dois dentro do carro. Continuamos a somar quilómetros e dentro cada um desses quilómetros conversámos sobre vários assuntos: experiências de trabalho, óculos de leitura, lentes progressivas, peripécias verificadas no estádio da Luz antes final da Liga dos Campeões no domingo, ontem portanto.
Por mais rápida que uma autoestrada ponha uma cidade, há sempre a possibilidade de lá chegarmos atrasados, especialmente se nos atrasarmos. E de facto, neste caso, chegamos atrasados, mas o atraso não nos penalizou. Para o propósito da nossa viagem chegámos a tempo, apesar termos comparecido no local combinado com vinte minutos em cima da hora marcada.
À noite encontrei um disco de 2015 dentro de uma arca cheia de discos e de filmes. É uma colectânea de uma revista francesa especializada em música. Tirar o disco do plástico que o envolvia deu algum trabalho. Tem catorze músicas, catorze personalidades sonoras (e não só) diferentes. Stuck no Land é uma música extraída do disco Welcome To Your Fate de uma banda francesa chamada Weekend Affair.
Arcozelo, Islândia
Algumas anotações corporais:
Leio dois
COMEÇOU A SER
Viemos para o Algarve há uma semana
Domingo. O elemento mais perceptível
Às vezes os peixes
Absolutamente nada (1)
Diz também que a idade não traz sabedoria, mas confusão. Foi aqui que guardei a bala no bolso, mestrado em confusão como sou. E pronto, foi isto. E um bocadinho de fisioterapia à minha prosa, que foi operada ao pé esquerdo e não tem saído muito de casa.
O diário visita o diário passado
Frankfurt, ida
Travei a leitura de um parágrafo de um extenso livro com a ponta do dedo indicador direito para deixar passar o comboio de informações atrelado à voz da funcionária do aeroporto, difundida através de um esclarecedor sistema de áudio, sobre voos e tabelas horárias. Quando me vi a embarcar de novo na ficção, levantando o dedo, o serviço informativo atropelou o livro para nos dizer que uma carteira fora encontrada algures e pediu ao passageiro pelo nome que a fosse recuperar. Do nome, adquiri conhecimento suficiente para saber que não era o meu, sem ter percebido por quem chamava o aviso. Em linha de vista, e em plano americano, apareceu um rapaz vestido de preto com o nome Dagobert escrito na camisola. Também não era ele.
Procurarei escandir da melhor forma o passo seguinte: pela segunda vez entre as seis horas de espera, o tempo acabou por me conduzir, pelo meu próprio pé, à casa de banho do homens e pela segunda vez uma mulher dentro de um uniforme verde limpava o chão como se nada fosse, circundada por urinóis pejados de utilizadores em trânsito fisiológico. E assim se acrescentou mais um capítulo ao conceito de normalidade.


