MEMÓRIAS DE UM VERÃO INÉDITO (3)
12.8.13
Damos por nós à espera de notícias sólidas na fralda. E assim passou o dia. Pode ser um som rompante que nos ponha em alerta, mas geralmente essa pista dá em falso alarme. É então que nos pomos a investigar os silêncios, colocando toda a nossa fé na vigília apurada de um nariz inspector, à vez, pelas pernas do catraio acima. E nada. Nada feito. O corpo pequenino sofre com os seus próprios momentos de preguiça. Nestas alturas a felicidade suprema está à distância de uma fralda toda suja. Força bebé.
Memórias de um verão inédito (2)
28.7.13
O João é o sujeito das nossas frases, de todas elas sem excepção. Mas é mais do que isso. É metade da atenção de cada um de nós, andamos há um mês a almoçar por turnos e ao jantar também só vai à mesa um prato de cada vez.
O choro do João não traz legendas. Pai e mãe decifram os pequenos códigos conforme podem. Sabem os dois que não vão acertar sempre, não têm como o fazer, mas sabem que vão estar sempre ali, mesmo que seja para não acertar sempre.
Ele é o relógio das nossas madrugadas, um despertador sem hora marcada, ele acorda como o amor começa, não manda dizer que vem, simplesmente chega e toma conta do assunto.
Memórias de um verão inédito (1)
25.7.13
O João lá se vai esticando nos seus quatro quilos. A mãe mingou nove meses em Julho. A natureza está a cuidar bem dos dois, não podemos pedir mais. O pai regressou ao trabalho, o trabalho está do mesmo tamanho, mora na mesma casa, sem leite, fraldas ou chupetas. Vinte quilómetros separam a terra da lua, a água do vinho, a noite do dia. O mundo é pequeno, não fala, não anda, não trinca. O mundo come, dorme e às vezes sorri.
O exemplar número 68
6.6.13
A ideia com que fico, manuseando o livro, é que ele foi feito à mão, até pelo tamanho miudinho da letra do texto. Estou a ver o editor a chegar a uma papelaria com o ouro que lhe caiu nas mãos, tamanho doze, Times New Roman, em folhas A4, logo traído pelo formato A5 com que o encadernaram, diminuindo-lhe automaticamente a fonte. Estou a ver o editor a chegar com o desenho da capa, a ver a máquina de corte e a impressora, estou a ver a confecção de um livro nas traseiras do balcão de um centro de cópias, o empregado a trabalhar a edição caseira nos intervalos das monografias, o nome Santiago Gamboa a luzir numa pequena editora (Eucleia) e o editor a pedir 500 exemplares que devem ter ficado por dez euros cada um.
E eis que me chegou às mãos o exemplar número 68, todos o exemplares são numerados à mão, e eu fico com a lamentável ideia de que desde Outubro de 2012 só foram vendidos 67 cópias do livro Necrópole, um festival literário que passou por baixo dos olhos adormecidos das grandes editoras. O leitor português merece, e precisa, de mais livros de Santiago Gamboa, devidamente encadernados, promovidos e distribuídos. É um grande negócio à espera de acontecer. Devo agradecer, no entanto, e ajoelhado, o tiro no escuro com a luz acesa que Eucleia Editora deu ao apostar na prosa viva de um talentoso colombiano de Bogotá.
O que é um domingo às oito e um quarto
2.6.13
Uma barriga de oito meses ao sol, triângulos de melancia, uvas verdes, torradas e dois cafés. Uma varanda e um parágrafo onde não cabe a nortada de Gaia. E uma vontade de caminhar sobre as rochas, de meter os calcanhares em cima do pólo norte. Um domingo às oito e um quarto é esta luz mansa à porta de uma praia deserta.
Brevíssimo ensaio sobre a cegueira
23.4.13
No livro da morte de Santiago Nasar, escreve a certa altura Gabriel Gárcia Márquez sobre a cegueira de Poncio Vicario, que um dia se lhe acabou a vista. Felizes palavras do velho Gabo para falar de um cego da sua infância, o tal Poncio, palavras guardadas durante décadas e levadas ao papel no ano anterior ao ano do prémio Nobel.
Comprei a edição em castelhano deste livro no Centro Cultural Gabriel Gárcia Márquez, numa visita a propósito da edição de um outro livro, A Estátua e Pedra, de José Saramago, o único Nobel português da literatura. Na véspera, na mesma cidade de Bogotá, o único português presidente da República esqueceu-se disso. São múltiplas as formas do acabar da vista.
Está tudo arquitectado
3.4.13
O imperador Adriano, pela mão de Marguerite Yourcenar, conta que "cada edifício era o plano de um sonho". Com os olhos à procura da minha cidade, que patas gatafunharam Vila Nova de Gaia e de que inferno vieram essas manápulas, é o que pergunto. O tempo e os seus homens desenharam lucro em vez de casas. Em todas as ruas, paredes zarolhas fazem meio de prova e encerram o meu caso.
A máquina
26.3.13
Por estes dias, se perguntarem por mim, sou a agulha do gramofone. E ponho as orelhas do tamanho da corneta, patanho o vinil, ando às volta nos sulcos e ouço. O dicionário diz que pode ser apoplexia, golpe, batida, acesso. E que pode ser lançamento, jogada, ataque súbito de doença e pancada.
Meti um disco na cabeça. The Strokes, Comedown Machine.
Semear dinheiro no asfalto
2.3.13
E vieram os homens, com as suas máquinas de comer terra e abriram pinhais pela barriga, às ordens de outros homens, da zona dos enlatados no supermercado das aparências, senhores doutores, há quem os chame pelo título, o que faz sentido, se mais tarde a responsabilidade dos erros tiver de permanecer anónima. E vieram então os homens, os Tonos, os Quins, os Manéis, enfim vieram os diminutivos todos ou sentados na cadeira das máquinas de comer terra ou então vieram a pé com pequenas línguas nas mãos, as pás, e também comeram.
Ao mando dos homens sem nome, semearam asfalto, concluída a refeição do solo. E de tanto terem trabalhado, um dia havia naquele chão mais estradas do que pessoas e mais pessoas do que automóveis e mais problemas do que os problemas inicialmente previstos. E como o dinheiro tinha fugido por uma dessas ruas para parte incerta, os velhos doutores foram destituídos e novos doutores vieram de uma eleição mais destinada a escolher quem perde do que a definir quem ganha. Passou a ser obrigatório pagar para andar na estrada. A população buzinou, vendeu o carro para poder andar na estrada, mas sem carro não teve como seguir o rasto do dinheiro. E andamos nisto.
Zap Canal (1)
25.2.13
4 - A tua cara não me é estranha. Já o fermento das concorrentes mamas, desconheço absolutamente.
82 - Os cabides podem ser gémeos do E.T e comentar vestidos.
8 - Educada conversa sobre futebol. E muito bem moderada pelo Hugo.
3 - O Manzarra, o Horácio e o Mourão são os maiores.
82 - É difícil ser Brad Pitt. Tem Angelina, mas não tem Jennifer.
2 - As mesmas notícias do 1 e do 8.
5 - Cymerman em La Masia. Perfeito.
82 - A filha do Ozzy continua mal vestida. Do mal o menos, continua vestida.
PS: No sofá a televisão é tão fácil.
82 - Os cabides podem ser gémeos do E.T e comentar vestidos.
8 - Educada conversa sobre futebol. E muito bem moderada pelo Hugo.
3 - O Manzarra, o Horácio e o Mourão são os maiores.
82 - É difícil ser Brad Pitt. Tem Angelina, mas não tem Jennifer.
2 - As mesmas notícias do 1 e do 8.
5 - Cymerman em La Masia. Perfeito.
82 - A filha do Ozzy continua mal vestida. Do mal o menos, continua vestida.
PS: No sofá a televisão é tão fácil.
Porque os Josés também choram
23.2.13
Dentro das camisolas existem homens. Foi o que disseram os trabalhadores da bola de couro, em Braga. Abraçaram o tratador da equipa e o homem não se conteve, a tensão dos últimos meses saiu-lhe em estado líquido pelos olhos. O coração manda, o futebol acontece.
O adeus às árvores
21.2.13
O regougo da motosserra, bruto, enche a praceta e os seus arredores. Três homens, chamados a concluir o trabalho da tempestade, atiram as postas de uma árvore, tombada pelo vento, para cima de um camião. Cortam mais três que ficaram de pé com perícia de talhante. E como quem poda um poema de George Peele, tiram as sombras ao território, disso se saberá um dia mais tarde, depois do adeus às árvores, haja sol e testemunhas.
Chutos e pontapés
9.2.13
Em Guimarães, pior figura do que a língua infeliz do português que gritou Messi, e que consumiu dois segundos do ego de Cristiano Ronaldo, fizeram os profissionais pés de muitos dos portugueses que todos os dias são mimados com chuteiras do melhor couro, relva da mais aparada, treino do mais científico, comida com peso e medida, duas horas de trabalho por dia. Mas é a vida, e jogadores há que, a partir de certa altura, imunizados pelo barulho das notas ou pela máquina de fazer silêncios dos clubes, e que não passando de futebolístas de artifício, mantêm um estatuto desafasado da habilidade dos pés.
Salva-se Ronaldo e mais dois ou três. É um ponto de partida. Para construir futebol não é preciso muito mais. É isso e estancar a contrafacção de jogadores da bola.
Salva-se Ronaldo e mais dois ou três. É um ponto de partida. Para construir futebol não é preciso muito mais. É isso e estancar a contrafacção de jogadores da bola.
Pré-publicação de "A viagem da Camisola", no regresso do jornal O Serzedo
22.11.12
Se eu não tivesse lido a nota introdutória do último livro publicado em vida pelo José Saramago, se o Arménio não fosse o primeiro a dizer sim, se o editor de desporto da SIC se tivesse esquecido de mim, a camisola do Serzedo nunca teria chegado aos relvados do campeonato da Europa, nem estas linhas teriam começado desta forma.
Esta história começou em Portugal e acabou na Ucrânia. Não teve qualquer passagem pela Hungria, mas é pela Hungria que a vou começar a contar. Em 1951 morreu um importante escritor húngaro em Siofók, uma cidade do Sul do país. Antes de ter sido escritor e antes de ter sido uma personalidade importante , Frigyes Karinthy, o defunto destas linhas, antes da aclamação pública e da fama, foi jornalista. Karinthy foi casado com uma actriz, primeiro, e com uma psiquiatra, depois, nenhum dos casórios deu certo, por este ou por aquele motivo, tendo ele procurado refúgio na escrita e aí encontrado, entre as letras, o matrimónio perfeito. Em 1929, Frigyes Karinthy escreveu e editou o livro "Chains" - socorro-me da edição inglesa, desconheço se existe uma edição portuguesa - que podemos livremente traduzir por elos, correntes, cadeias. No livro, o escritor húngaro traz ao mundo a teoria dos seis graus de separação, segundo a qual existem apenas seis passos a separarem duas pessoas no mundo, sejam elas quem forem, estejam elas onde estiverem. A teoria foi mais tarde comprovada por cientistas norte-americanos. E com isto saio da Hungria.
É uma teoria reconfortante. Nunca nos deixa demasiado longe de ninguém, nem mesmo na madrugada da partida para a Ucrânia, na solidão de um quarto de hotel em Lisboa, a escassos quilómetros do aeroporto e a poucas horas do embarque. O encontro dos jornalistas, editores, directores e repórteres de imagem da SIC foi marcado para as quatro. Já passa da uma da manhã, adormecer é um risco elevado, posso não acordar a tempo. A RTP está a recuperar um filme qualquer do Wesley Snipes ou do Schwarzenegger. Fico com eles até à hora do duche, depois desço, chamo um táxi, entro no aeroporto com a pontualidade de um relógio da Liga dos Campeões.
E daí a nada estamos a sobrevoar Espanha, rumo a Munique. A camisola do Serzedo começou esta jornada no café do clube - o Zé passou-me para as mãos o saco de papel que o senhor Lucas lá tinha deixado - passou uma noite em Miramar, foi de carro até ao Porto e foi do Porto a Lisboa de Expresso por causa da greve dos comboios desse domingo. Agora está dentro de uma mochila preta, no compartimento da cabine, por cima da minha cabeça, entre um livro do Eduardo Mendoza e os meus apontamentos da selecção nacional. A viagem teve escalas em Munique e em Viena.
A camisola só entrou no estádio ao terceiro dia na Ucrânia, em Lviv, na manhã do jogo entre Portugal e a Dinamarca. A camisola foi fotografada no relvado e no banco de suplentes, exactamente no lugar destinado ao Paulo Bento. E falta mais de uma semana para a camisola do Serzedo chegar às mãos do Robert Pirès. Aqui, e como em tanta outras ocasiões, o destino não depende de mim. Não está nas minhas mãos.
Estávamos no dia 13 de Junho. A vitória tardia sobre a Dinamarca, achada naquela monumental simulação do Silvestre Varela, encaminhou o apuramento. O banho de bola à Holanda vez o resto. O regresso da equipa escolhida pela SIC para os jogos com direitos de transmissão tinha mais um obstáculo, a República Checa. A camisola do Serzedo também. Cristiano Ronaldo resolveu o problema nas calmas, e lá fomos nós outra vez.
Este ano o S.João estragado foi um mal menor. Bem pior foram os penaltis e os noventa minutos ligado à máquina, contra a Espanha. Que nervosismo. Que sofrimento. As palavras mais banais demonstram os sentimentos mais puros. Tenho o dia 23 de Junho de 2012 atravessado. E sei que nunca vou deixar de o ter, como ainda hoje não deixei de ter atravessado o dia 23 de Junho de 1984, quando a França passou por cima dos dois golões do Jordão , atirou Portugal para fora da final em cima da hora do prolongamento e deixou este miúdo de dez anos a chorar no S.João da Tapada. Um pranto! Rogo por um decreto-lei que impeça Portugal de jogar na véspera do S.João.
Aterrámos em Donetsk três dias antes da meia-final com a Espanha. A camisola do Serzedo, sem o frio na barriga do primeiro voo, aproveitou melhor a viagem e desta vez chegou sem vincos ou encorrilhas.
É altura de sacar o trunfo dos seis graus de separação. Um coisa leva à outra, tudo acontece por questões de proximidade, seja a distância entre os factos e as pessoas de quinhentos metros ou de cinco mil quilómetros. O meu factor de proximidade preferido é a língua. Não tem de ser a língua nativa, pode ser outra língua qualquer, desde que os intervenientes no diálogo percebam o código e dele tirem partido. Assim foi: faltam duas horas e meia para a primeira meia-final do Euro-2012. É uma boa altura para levar a camisola ao estádio. As portas ainda não foram abertas ao público. As balizas sem dono, as cadeiras sem gente, o chão sem chuteiras, o campo sem vida, são um belíssimo cenário para quem nele pode entrar e tirar partido do silêncio, da paz, dos nervos e da solidão. Mas no futebol, é como dizem os adeptos do Liverpool: you'll never walk alone. Acompanha-me neste pecadilho de apreciar o estádio um comentador de uma televisão espanhola. O comentador chama-se Robert Pires. Chamo por ele. Olá Roberto! O meu porrtuguês, estou enferrujado, lá me informa. Francês que diz enferrujado com aquela naturalidade toda não tem ponta de ferrugem na língua. Tal como nós, de Serzedo, o pai da antiga estrela do Arsenal e da selecção francesa, também é do norte de Portugal. E também tem um pequeno clube na terra, do qual é adepto. Na conversa, o Robert Pires fica a saber da camisola que tenho dentro da mochila. Diz: dá cá! E pronto. Uma pose, o telefone à mão, a fotografia para memória futura e esta incrível viagem a Donetsk a acabar conforme começou, algures na entrelinhas do último livro do José Saramago publicado em vida, quando ele cita o Livro dos Itinerários, e nos diz "sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam" .
Fumadores (5)
19.10.12
Tantas situações pouco recomendáveis acontecem, graças a Deus, mesmo em frente à Ordem do Terço, na Travessa de Cimo de Vila. Entre elas, quatro cigarros acessos, duas línguas afiadas, quatro gargantas secas. Sai um jarro pintado de tinto. Parte-se um copo no brinde. Cai um quartilho nos paralelos, os pombos descem do telhado, mas logo se apontam outra vez ao céu, porque aquele sangue traz água no bico.
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